Mais ou menos

O grande contador de histórias e de viagens Robert Dessaix – que também foi radialista, ou por isso mesmo – nota que a poesia, tal como namorar, “não é uma coisa a que hoje em dia dediquemos muito tempo. Dá a impressão que só temos tempo para a sedução, para seguir os letreiros que levam à satisfação. Gostamos de despachar as coisas e passar à seguinte.”

Essa urgência que abafa e nos tolhe, essa aridez defensiva que se instala, esse ser mais ou menos pode ser derrubado. Pela  palavra certa e pelo cerco constante de um abraço pleno de intimidade.

Essa Mulher

A que nunca amei e me ama pensa em mim à noite
antes de dormir, e nos escombros do sono
vê o meu rosto suave, arrogante, de há muitos anos
e sente uma mão fria empunhar-lhe o coração.

É bela a que nunca amei e me ama, cada vez mais bela
com seus cabelos soltos ao sopro da memória,
com uma voz onde sonham luas que jamais iluminaram
um caminho que me levasse à que nunca amei e me ama.

É doce essa mulher que acorda e diz o meu nome
com unção. Seus olhos me fitam do longínquo
e doem em mim como dói nessa mulher que me ama
amar quem nunca a amou, disperso em seus enganos.

A que nunca amei e me ama acaricia a minha ausência
com pena de mim, que teria sido feliz, bem sabe,
se a tivesse amado; a ela, que me ama e nunca amei
e nunca hei de amar, como até hoje, amargamente.

Ruy Espinheira Filho

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