Portugal, o imperfeito

O português anda triste. Prenhe de um cansaço que pesa mais que o corpo. Tutela a vida ao medo de perder o emprego, a casa, o empréstimo. O orgulho nacional tornou-se numa frágil muralha onde todos os dias se abrem pequenas brechas.

Olha-se para Portugal e país parece ter fechado para balanço. Sucumbindo ao exercício inútil da autoflagelação. Abre-se o jornal e todo o discurso é um discurso de desconsolo e desânimo.

Portugal é imperfeito, incumprido, suspiram tristes.

Como se houvesse países perfeitos. Há-os países quase perfeitos e nada é mais entediante do que a perfeição. Quem conhece os países nórdicos sabe do que falo.

Portugal precisa que os portugueses olhem para ele não como para o pai austero e trágico, mas como o amante moreno, de olhos brilhantes, promissores de malícia e descobertas. Capaz de nos pôr a alma à janela.

Há tantas razões para se deslumbrar com Portugal. Debruço-me à varanda do país e vejo a luz quente a pousar no líquido silêncio do Tejo na Lisboa que alberga o fantasma de Pessoa. As veredas silenciosas do Minho, os socalcos do Douro, as estradas bordadas a hortênsias dos Açores, a paisagem sem moldura alentejana, o mar azul a desenrolar-se em crinas espuma nas areias de Porto Santo.

E os sabores de Portugal, descritos por Eça como ninguém? Algo melhor do que o sumo dos pêssegos corados pelo sol a escorrer pelos lábios? Ou uma alheira de Mirandela? Um bodião grelhado?E os doces conventuais? Paixão e perdição.

Portugal não é feito apenas de clima, paisagem e sabores, é feito de pessoas. Na maioria dos casos boas.

De Abril para cá Portugal tornou-se mais bonito. O país rural, pobre, a cinzento e negro da ditadura, ganhou o direito ao voto, a protestar, a falar grosso e a direito. Aprendeu a inscrever-se por causas. Vestiu-se de branco por Timor. E foi grande porque foi generoso. Tenho encontrado tantos portugueses generosos que, a troco de nada ou quase nada, dão o seu tempo, o seu carinho, uma palavra amiga ou partilham o que sabem.

Podia falar de poetas e escritores, de arquitectos e cientistas e até de Mourinho e Ronaldo. Mas chegam-me as pessoas comuns, heróis de diários de quem não se faz estátua.

Sabem o que me deslumbra mais em Portugal, visto à distância de três mil quilómetros e de quinze anos de emigração? É o sorriso aberto que ensina a vida ser bonita. Um sorriso embala-nos na ilusão de ser possível. De tudo ser possível, até ver bocados de perfeição num país imperfeito.


One thought on “Portugal, o imperfeito

  1. Tb adoro o meu país:) Zango-me com el mts vezes, queria poder mudar tanta coisa mas é só por-me a viajar cá dentro e rendo-me imediatamente. O estilo de vida mediterrânico, meio caótico e louco, quente e ocioso, ainda é dos que mais me preenche:) Imperfeito, mas (no) presente.:)

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