Ghosts by Daylight ou o amor em tempo de guerra

Há poucas pessoas preparadas para se debruçar sobre os momentos dolorosos e a agradecer-lhes a lucidez que trazem como bónus. E há ainda menos pessoas capazes de o escrever de uma forma poderosa, elegante, envolvente e com a crueza de um bisturi. Janine Di Giovanni é uma delas.

Conhecia-lhe as reportagens– Sarajevo, Iraque, Gaza, Ruanda, Somália, Costa do Marfim, Timor Leste – memoráveis pela paixão e a elegância da escrita. Sempre quis saber mais sobre a mulher por detrás da correspondente de guerra.

Nas suas memórias, Ghosts By Daylight, Janine Di Giovanni fala dos campos de batalha, mas escreve sobretudo sobre “o” amor, um amor enorme, complicado,  coreografado em redor das guerras e o fracasso quando resolveu assentar e tentar uma “vida normal como mulher e mãe”.  “ Eu não tinha medo quando estava no meio do caos. Era a vida real com as suas vastas responsabilidades e abismos de insegurança que me assustavam. A vida doméstica era um país estrangeiro, o mais estranho que alguma vez visitei”.

A jornalista conheceu Bruno Girondon, cameraman da France 2, em 1993 em Sarajevo, apaixonaram-se. Não ficaram juntos, mas não conseguiam estar separados. Durante uma década amaram-se em encontros fugazes, em continentes diferentes, paixão plena de malentendu, protegida da erosão pela adrenalina de guerras diferentes. O pedido de casamento foi feito por telefone, ele no Ruanda, ela na Somália. Escolheram Paris, em 2004, para a vida a dois e seria aí que nasceria o filho do casal. “ A vida real com todos os seus cantos aguçados era terrivelmente difícil”.

Baixadas as defesas psicológicas, depois do parto o síndrome pós-traumático instala-se. “Eu nunca tinha tido pesadelos nos anos em que andei de guerra em guerra – talvez por algum mecanismo interior de sobrevivência não me permiti ser introspectiva o suficiente – mas eles começaram agora: sonhos com casas em chamas, pessoas sem membros, de crianças presas dentro de abrigos. Pensei interminavelmente na Chechénia… Ou na altura que montei a parte traseira de uma moto em Timor Leste e cheirava as casas queimadas e via o terror nos rostos das pessoas”. Bruno dizia-lhe “ estás em Paris, não em Grzny, nem Abidjan. Estás salva”. O psiquiatra perguntou-lhe “quantos mortos viu?” “ O facto é que eu não sabia. Centenas?”.

Janine conta como lutou desesperadamente para se sentir em casa, para lidar com o trauma e com o alcoolismo de Bruno (a forma que ele encontrou para esquecer o desfile dos mortos).

O casamento acabaria em 2009. “ Guardei a aliança numa caixa de cedro”, juntamente com os novos de plástico do bolo de casamento. “ Coloquei também um pedacinho de papel perfumado com o perfume que o Bruno tanto gostava. O cheiro da felicidade”.

A verdadeira tristeza da vida? “That two people who deeply love each other cannot always live together”.

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3 thoughts on “Ghosts by Daylight ou o amor em tempo de guerra

  1. Adorei . Que história de amor, tendo o mundo como pano de fundo… lindo. Eu sou fã destes percursos mas não deve ser fácil tentar sentir-se bem em casa. O mundo, a missão chama… E a frase final é tão verdadeira. (Lembrou-me a Liz Taylor e o Burton que diziam exatamente a mesma coisa.)

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