Os mercados moram aqui

Se a crise da dívida fosse um filme de vilões este seria o cenário perfeito. Kronberg, nos arredores de Frankfurt. Cidadezinha discreta, silenciosa, daquelas que não aparecem no Google Street View.

Olhe-se para a estatística e percebe-se porquê. Banqueiros, industriais, milionários e multimilionários – conceito que na Alemanha é aplicado a fortunas superiores a mil milhões de euros – fazem de Kronberg a cidade com maior poder de compra na Alemanha, muito provavelmente na Europa. Os mercados moram aqui.

É às mansões sumptuosas de Kronberg, cercadas por muros altos, protegidas por portões à prova de bala e câmaras de vigilância, que à noite regressam, ronronado os motores dos Jaguares, Maseratis, Porsches, Maybachs, os gestores que têm na mão o destino de países inteiros. Portugal incluído. A casa de hóspedes do Banco Central Europeu também se situa aqui. Este é o maravilhoso mundo da upper class, em que o dinheiro absorve todas as falhas de carácter. Mundo imperturbável e convém que se acentue a palavra imperturbável.

O Die Zeit quis pôr este território sideral à prova. Como convivem os milionários com a pobreza? Serão os Maquieveis e as aspirantes a Maquievel dos tempos modernos a personificação do cinismo e da amoralidade? Falha a responsabilidade social do dinheiro?

Nos dias que antecederam o Natal, um repórter e uma actriz, vestiram roupas coçadas, disfarçaram-se de sem abrigo e procuraram ajuda em Kronberg. Desse exercício resultou a perturbante confirmação do estudo do psicólogo Dacher Keltner da Universidade da Califórnia. Keltner concluiu que “as pessoas mais ricas têm menor capacidade de empatia e menos compaixão do que as mais pobres”. “Aquilo a riqueza, o prestígio e uma boa posição na vida dão é a liberdade para se concentrar em si próprio”. Licença para o egoísmo ou para se livrar do aborrecimento que é ter uma consciência.

Todas as portas de Kronberg se fecharam ao Die Zeit, ou melhor nenhuma se abriu, porque a comunicação foi feita através de intercomunicadores. Apenas um padre católico, habituado a conviver de perto com a pobreza, deu abrigo ao repórter e à actriz durante a noite. Todas as esmolas e refeições que receberam vieram das mãos dos empregados, de um jardineiro ou de alguma classe média que habita em Kronberg.

Há várias passagens na reportagem que inquietam. Uma delas é a observação de uma criança, com um rosto que podia ser capa de uma qualquer Vanity Fair, “mamã, olha aqueles cobardes preguiçosos”. Pobre menina rica será que algum dia se dará conta que existem catástrofes maiores do que a queda do DAX?

Outro momento desconcertante é a descrição do “Charity Concert” para os meninos cegos do Bangladesh organizado por um manager da Standard & Poor’s. A concorrência pelas photo-opportunities da caridade é tão grande, que já não basta uma só tragédia ser-se pobre no Bangladesh, no Sri Lanka ou no Peru, é necessário um cumular de desgraças, neste caso ser-se pobre e cego. Condição sine qua non para a distribuição das migalhas que caem do banquete dos milionários é estar-se à distância de um continente. Porque ajudar os mais de dez milhões de pobres na Alemanha colocaria a questão da redistribuição da riqueza. Uma maçada portanto. Os falsos sem-abrigo estiveram durante cerca de trinta segundos no lobby do hotel de luxo onde se realizava o concerto. Zelosos os empregados conduziram-nos à saída. “ A vossa presença é inadequada. Nós temos um evento de caridade!”.

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6 thoughts on “Os mercados moram aqui

      1. Completamente, Helena. Conheço uma parte da África branca, a Tunísia, relativamente bem e é isso mesmo, o sentimento de partilha é enorme. Dão-nos lições no que diz respeito aos sentimentos fraternos…

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  1. E qual será o país do mundo onde as diferenças entre ricos e pobres são menores e onde há menos desemprego e mais emprego com qualidade?
    O do “pobre Africano”, o do “rico Alemão” ou o de algum outro estereótipo absurdo…?
    O Alemão pede desculpa por não varrer o pobre que lhe bate à porta da consciência para debaixo do tapete com uma moedinha e preferir combater a pobreza e promover a igualdade por atacado e de forma sistemática.
    Cumps
    Buiça

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    1. Buiça,
      isto não é um problema de alemães ou outros povos, mas de ricos e pobres. Pelos vistos, todos os ricos são iguais…
      É verdade que o Estado alemão combate a pobreza e tenta dar oportunidades a todos.
      Mas perante o caso concreto de uma mulher grávida andrajosa que pede abrigo para passar uma noite gelada de Inverno, ninguém se pode desculpar com um Estado que devia tratar do caso dela. Nenhum Estado, por mais eficiente que seja no combate à pobreza, pode substituir e tornar supérflua a humanidade das pessoas.

      O que este artigo põe a nu é o terrível egoísmo dos ricos, completamente cegos ao sofrimento alheio.
      Voltando a usar a linguagem do próprio artigo (José e Maria à procura de alojamento para passar a noite, e todas as portas se fecham): aqui se explica muito bem com exemplos práticos porque é que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus”.

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      1. Cara Helena, sem grande polémica retenho o seguinte “É verdade que o Estado alemão combate a pobreza e tenta dar oportunidades a todos.” É a única parte que me importa.

        A liberdade individual de cada um fazer o que bem entender com a sua riqueza ou pobreza (dentro dos limites da lei) é, e quanto a mim tem que ser SEMPRE, um valor superior aos de quem pretende impor os seus a quem deles não partilha.
        O “egoísmo dos ricos” só ficaria minimamente demonstrado se eu não fosse capaz de encenar precisamente o mesmo teatrinho num bairro de gente com menos posses. Se porventura além de não darem auxílio alguém lhes roubasse a mantinha ou a carteira, suponho que concluíria pelo fim do mundo…? Repara que assistimos precisamente a isso num bairro menos digno dos arredores de Londres durante os últimos motins em que ajudam um rapaz ensanguentado a levantar-se só para melhor lhe poderem roubar a mochila.
        A mim tudo isto apenas me evidencia a profunda demagogia do programa/artigo e agora, com mais o ingrediente do “reino dos céus” (?), o quão manipuláveis são os católicos (ou os crentes de uma forma mais alargada) perante tais exercícios de demagogia.
        Com discordante respeito,
        Buiça

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