Ainda o Natal

A infância passou-a em Vila Nova, uma aldeia remota de Trás-os-Montes, nos anos quarenta. Nesses dias que me parecem longínquos e que a imaginação não é suficiente para evocar, a vida era uma tragédia permanente.

Na infância dele havia missa ao domingo, uma enxerga de palha para dormir e um arado para sulcar a terra de madrugada antes de ir à escola. Adormecia embalado pela fome. Jantar havia quando calhava.  Enganava-se a magreza com umas batatas, umas couves, côdeas de broa, fruta roubada dos pomares. Os pés durante anos só conheceram alpercatas. As calças eram puídas, remendadas, seguras por um cordel. Não passava um dia em que não houvesse enxertos de cinto por-dá-cá-aquela-palha, gritos, insultos. Colo foi topografia que não palmilhou. Se teve sonhos foi vedado de sonhá-los. A tristeza gelada como a geada, muda, apertava-lhe o coração de garoto. Entranhou-se. Ficou.

A memória dos odores também permaneceu. O do estrume dos animais na loja, o da fuligem entranhada nas paredes, negra como algumas almas. E o cheiro do deus no altar da pobreza daquela casa de granito: o vinho.

Nunca falou da infância. Aliás, nunca falou da sua história. “A meninice são instantes não são? O resto é o que fazemos da vida”.

Há poucos dias, à mesa, a neta desarmou-o. Depois de a avó, enternecida, lembrar a alegria das moedas de tostão, o cheiro a laranjas, as nozes, o punhado de guloseimas, ou mesmo o brinquedo novo que o menino Jesus lhe deixava habitualmente no sapatinho, a Matilde perguntou: “Avô o que tinhas pelo Natal?”. Uma alpercata cheia de nada. Fez o trejeito involuntário dos que querem exorcizar recordações antigas.

É a mim, almofadada pelo meu conforto material, que não a vivi, que  a memória desse homem-menino talvez mais doa.

De repente o silêncio encheu-se de significado. Percebo a ausência. Entendo o trocar os grilhões da aldeia pela ilusão da liberdade. Mesmo que essa liberdade fosse o inferno dos pântanos da Guiné.

Constato que além do nome, de uns breve instantes fixados em fotografias a preto e branco, quase nada sei do acerca meu pai.

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