Dummheit über alles

Manual do cronista português
Por Cristina Krippahl ( in Portugal Post)

A crise da dívida encheu as páginas dos jornais portugueses de opiniões sobre a Alemanha e os alemães. Não de factos – isso seria talvez pedir demais – mas de juízos, teimas e convicções baseados em … juízos, teimas e convicções.

Uma breve análise das elucubrações em questão permitiu-nos compor este pequeno manual para a arte de bem opinar nas publicações lusas. Esperamos que possa ser útil a futuras gerações de jornalistas portugueses.

I. Não seja demasiado original na escolha dos títulos para evitar destoar do resto. Títulos originais são como ideias originais: indesejáveis. E dão trabalho. Um título muito popular é “Deutschland über alles”. Uma breve alusão ao passado longínquo de um país que já não existe, como não existe, aliás, essa estrofe num dos hinos mais pacíficos e líricos da Europa: o alemão. Foi abolida em 1952, para não ferir susceptibilidades europeias. Mas o verso não tinha nada a ver com expansionismo, conquista, fascismo ou nazismo. Datava de meados do século XIX e expressava a aspiração a uma Alemanha unida como nação, que então ainda não existia. É mais ou menos como escrever um editorial sobre Portugal contemporâneo e intitula-lo “Cá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim”. Embora, agora que penso nisso, talvez esse até fosse um título bastante certeiro. Sobretudo a parte do “levados”.

II. Adiante. Resolvido o dilema do título, o resto é fácil, desde que não se perca de vista o objectivo da crónica portuguesa: escrever muitas palavras (serão pagas ao metro?) para não dizer nada. Pelo menos de substancial. O que ser quer é a Opinião. No caso da Alemanha, não há que enganar. Basta repetir ad nauseam que a Alemanha é a culpada de tudo: da dívida portuguesa, do corte dos salários, do aumento dos impostos, da queda do Governo, e da queda do cabelo do escriba.

III. Prove o seu desprezo por ninharias como profissionalismo e faça um esforço para escrever incorrectamente todos os nomes próprios alemães. O grande exemplo a seguir é a de um conhecido semanário português, que, com perseverança e dedicação, escreveu Khol em vez de Kohl ao longo dos 16 anos que homem passou na chancelaria.

IV. Não caia no erro de tentar argumentar. Até pode ser que certas posições da Alemanha sejam passíveis de crítica. Por exemplo, a recusa de alargar as competências do Banco Central Europeu. Não enverede por aí, isso é muito complicado. Primeiro, teria que explicar o quanto a Alemanha já cedeu neste particular. O que, para além de exigir conhecimentos, é contraproducente. Depois, haveria que traçar, pelo menos em linhas largas, a motivação de Berlim, que inclui a memória colectiva da inflação mortífera do entre-guerras. Inflação esta que levou a uma situação de desespero tal, que até um psicopata de nome Hitler se pôde arvorar em salvador. Os alemães juraram “nunca mais” e estão convencidos que estabilidade monetária é a solução. Evite pormenores deste género porque para os expor é preciso – horribile dictu – conhecer a História da Europa.

V. Para a motivação da Alemanha existem explicações muito mais acessíveis: os alemães são todos nazis e estão a aproveitar a crise dos outros para pôr em prática o velho plano de conquistar o mundo. No caso de Portugal, o mundinho. Nos filmes americanos, esta parte vem sempre acompanhada pelo riso malévolo de um general nazi de botas de cano alto e monóculo, bradando: “Tomorrrow zee vorrrld”. É mais ou menos o nível a que deve aspirar na sua crónica (e se conseguir incluir o termo “Panzer”, será instantaneamente cooptado pela elite dos opinadores). Esta teoria cai sempre bem. Não explica porque é que os alemães apoiaram as forças democráticas em Portugal com injecções financeiras maciças antes e depois do 25 de Abril ou impuseram, contra a resistência da França, a entrada de Portugal na CEE, em 1986, e por aí diante. Mas, lá está, não tínhamos dito que os factos não são para aqui chamados?

VI. Também deve ficar por explicar pelo comentador porque é que a chanceler alemã está farta de arriscar a coligação governamental, e – tendo em conta a resistência na população – as próximas eleições, para levar avante planos de resgate cada vez mais volumosos. Para sorte do cronista, quase nenhum meio de comunicação português tem correspondentes na Alemanha que possam transmitir uma visão realista deste país, que, por acaso, é o mais importante na União Europeia. Até a televisão estatal RTP acredita que o cidadão português não precisa saber o que faz a Alemanha correr. Para o jornalismo português, o mundo acontece entre Chelas e Odivelas.

VII. Quanto aos numerosos países no norte da Europa que pressionam a Alemanha para ser ainda mais rigorosa e menos flexível nas assistências prestadas … estamos conversados: na visão do comentador português, puramente não existem. Nem mesmo se aperceberam da queda do governo eslovaco devido à resistência cerrada às ajudas num país que penou verdadeiramente para cumprir os critérios de acesso ao euro. E que, tal como a Áustria, a Holanda e muitos outros, não percebe porque é que agora tem que pagar a conta daqueles que viveram acima das suas posses. A chanceler Merkel tem, portanto, mais essa tarefa: convencer estes países da necessidade de manter o sul na zona do euro. Não que isso tenha a menor importância para o editorial tipo luso, claro. E pode estragar o lindo cliché da Alemanha como país poderoso mas isolado na Europa, que insiste em sabotar os arranjinhos.

VIII. E se Angela Merkel fizer um discurso qualquer que não pode ser ignorado, mas que destoa das convicções dos cronistas, como: “A União Europeia é vital para a Alemanha”? É fácil, comenta-se doutamente: “Finalmente Berlim está a acordar e a dizer as verdades aos alemães”. Finalmente? Vivo neste país há 30 anos, e não me lembro de um único discurso de um chanceler sobre a Europa que não repetisse até à exaustão este truísmo. Ups, mais um facto, peço desculpa, esqueça.

IX. Porém, se não obstante estas dicas fundamentais o seu editor não gostar da sua crónica, não desespere. Há sempre uma boa solução: sirva-se online das opiniões dos cronistas do New York Times, do El País e do Le Monde. Se não falar nenhuma língua estrangeira, vá roubar ideias aos blogs nacionais, Tudo sem citar as fontes, claro. Acredite, o método tem feito carreiras jornalísticas fulgurantes em Portugal.

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One thought on “Dummheit über alles

  1. O que pretende provar minha senhora? A sua frustração enquanto jornalista ou apenas que é uma luminária?
    O seu artigo revela as duas coisas só não sei em que percentagem.
    Trabalhei com alemães e conheço-os bem, até como já disse por aí, gosto bem deles a trabalhar e não só, mas quando falamos dum povo é sempre do seu estereótipo que falamos, mas a sua amargura em relação a nós revela muito mais, o não dito. Passe bem e fique com a sua ideia sobre nós, os lusos, como lhe chama, porque a ela tem direito

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