A voz de Cabo Verde calou-se aos 70 anos. Traída pelo coração, neste sábado. Morreu a mulher, o balancear sobre os pés descalços, voz impar, as mornas e coladeras da diva dos “dez grãozinhos de terra espalhados no meio do mar, ficam, não são de Cabo-Verde, mas do mundo.
Foi uma espécie de premonição. A 24 de Setembro de 2010, Cesária Évora, anunciou que iria cessar a sua carreira a conselho médico. Nesse mesmo dia foi internada na sequência de mais um acidente vascular cerebral. A morte levou-a pela alvorada, na sua ilha natal São Vicente. “Insuficiência cardio-respiratória e tensão cardíaca elevada”, constava no relatório médico.
Quem viu Cesária actuar ao vivo lembra-se do corpo volumoso, ondulando lentamente, apoiando nos pés sempre nús. O que lhe valeu o cognome, dado pelos franceses, que a descobriram para o mundo, de “diva dos pés descalços”.
Quem viu Cesária actuar ao vivo recorda sobretudo a voz de um timbre inigualável, a calma profunda e melancólica que emanava das suas canções, fossem elas mornas ou coladeras.
Desses palcos do Mindelo para os do mundo, escreve o jornal cabo-verdiano “Expresso das Ilhas”, “perdeu as contas aos carimbos no passaporte mas, não perdeu a simplicidade que lhe era característica na forma de falar, de lidar com as pessoas, sem cerimónias sem decoros exagerados, simplesmente a Cize. Uma Diva que gostava de anéis de ouro, de ter as unhas sempre arranjadas mas, que nunca gostou de sapatos e talvez por isso tenha mantido os pés bem assentes na terra, apesar da sua grandiosidade e reconhecimento pelos vários cantos e recantos do mundo por onde já andou.”
Apagaram-se os brilhos, desligaram-se os microfones, fecharam-se as cortinas. Fica a “sôdade”.
Adptado de um trabalho meu para a DW