Para compreender Merkel*

Numa aula de natação, quando Angela Merkel tinha 12 anos, ficou parada na extremidade da prancha de mergulho cerca de 45 minutos antes de reunir a coragem necessária para saltar para a piscina. “Tenho coragem no momento certo. Mas preciso de um considerável tempo de preparação e de pesar todos os riscos.” Na escola, na universidade, nem colegas, nem professores, apesar da excepcional inteligência, alguma vez viram na recatada Merkel um potencial de liderança.

Contrariamente à maioria dos políticos de primeira linha dos democratas-cristãos, ela não seguiu o caminho tradicional – a filiação na juventude democrata-cristã, envolvimento na política local, construção de redes e contactos. Estava do outro lado do Muro. Como se explica a ascensão do “nada político”, de alguém com um perfil o mais distante possível do clássico, a mulher mais poderosa da Alemanha ? Por uma conjugação de qualidades pessoais e de acasos biográficos e de uma constelação histórica ímpar.

Poucas semanas após o seu nascimento, em 17 de Julho de 1954, em Hamburgo, os pais de Angela Merkel, o estudante de teologia Horst Kasner e a professora Herlind Kasner decidem-se por uma vida na ditadura, numa época em que a guerra fria ganhava contornos assustadores. Só nos primeiros meses desse ano 180 mil alemães viraram as costas à República Democrática da Alemanha para se fixarem na República Federal. Até à construção do Muro, em Agosto de 1961, seriam 2,7 milhões. Face à “raison d”État” ateia do socialismo, que via na religião “o ópio do povo”, e conhecendo a repressão de que a Igreja era alvo, a resolução dos Kasner não foi maquinal, mas ideológica. Dar uma oportunidade ao seu país – uno – e lutar contra a dessacralização da metade alemã em mãos soviéticas.

“Uma aluna exemplar”

Angela Merkel e os irmãos mais novos Marcus e Irene cresceriam em Templin, uma cidade com 14 mil habitantes no Land de Brandeburgo. Aqui o pai exerceu as funções de pastor evangélico e tornou-se um homem influente da Igreja na RDA. A mãe de Angela Merkel teria preferido ficar na RFA, onde era professora de Latim e Inglês, profissão que nunca pôde exercer no “Paraíso dos Trabalhadores” por ser mulher de um clérigo, mas acompanhou Horst Kasner “por amor ao marido”. Com muita frequência, a mãe lembrava-lhe, a ela e aos irmão, que os filhos “de religiosos tinham de ser melhores que os outros”, se não, num Estado ateu, “não teriam acesso à universidade”. Os professores de Angela Merkel descrevem-na como “uma aluna exemplar”, “brilhante”, “discreta” e com talento paras as línguas. A “aluna ideal”. Com quinze anos, Angela ganha as Olimpíadas de russo da RDA. Como prémio, recebeu uma viagem a Moscovo, que lhe ficou na memória por conseguido comprar em pleno coração do comunismo o seu primeiro disco dos Beatles “We all live in a yellow submarine”. O domínio perfeito do russo valeu-lhe a admiração do Presidente Vladimir Putin, que, por seu turno graças aos anos que viveu na RDA ao serviço do KGB, se exprime com fluência em alemão.

Cultivar a desconfiança

Não lhe são conhecidos amores de juventude, os colegas dizem que não era particularmente atraente. O primeiro grande amor de Angela Merkel é dos tempos de faculdade. Distinguia-se dos rapazes e das raparigas da sua idade pelos “hobbies”. Angela coleccionava postais com obras de arte e apreciava as visitas ao teatro em Berlim e aos museus que fazia com a avó, que morava em Berlim-Leste. No seio familiar encontrou a protecção, a segurança que tempera as pessoas fortes. Teve uma infância feliz. Em casa trocavam-se palavras, na clandestinidade, que ninguém podia ouvir. Nessas sessões, o pai, que recusou ser IM, informador inoficial da Stasi, ensinou-lhe, a par do imperativo categórico kantiano e lógica argumentativa, a cultivar a desconfiança. Aprendeu a esconder dos professores, dos colegas de classe e dos representantes do Estado aquilo que pensa. Tornou-se extraordinariamente controlada, característica que ainda hoje a torna para muitos estranha, pouco previsível, esfíngica. “Se algum dia Merkel falhar na política”, diz Gerd Langguth, politólogo da Universidade de Bona e biógrafo de Merkel, “será devido a estas características. Pela dificuldade em estabelecer um círculo de bons amigos e apoiantes indefectíveis para os bons e maus momentos”.

Durante muito tempo Angela pensou em estudar medicina, mas acabou por escolher a licenciatura em Física na Universidade Karl-Marx em Leipzig, uma academia de indiscutível qualidade científica, mas profundamente ideologizada. Disciplinas como comunismo científico, marxismo-leninismo e russo eram obrigatórias mesmo para quem queria compreender as leis da matéria. Ainda durante os estudos casaria, em 1977, com Ulrich Merkel – “a razão principal para o casamento rápido foi termos uma oportunidade de conseguirmos um emprego na mesma cidade” – de quem se divorciaria, sem filhos, em 1982. O professor Ralf Der ainda hoje está impressionado com a sua antiga estudante. Descreve-a como sendo “íntegra “, “autoconfiante” e não “temendo desafios”. “Ela sabia para onde queria ir e como queria ir”, sublinha.

Uma vez concluída a licenciatura, Angela Merkel procura um lugar como assistente universitária. À saída de uma entrevista na Universidade Técnica de Ilmenau é abordada por dois funcionários da Stasi. Não aceita a condição que garantiria o lugar: ser informadora. Conta que terá dito aos funcionários que não sabia “se seria capaz de manter o segredo” e que “se calhar me descuidaria com o meu marido”. Fina argúcia.

Acabará por concluir o doutoramento em Física, em 1986, na Academia de Ciências de Berlim-Leste. “Para o partido [ SED] a Academia tinha a vantagem que ali se podia investigar e realizar programas de doutoramento, mas não se leccionava. Não entrávamos em contacto com os estudantes. Do ponto de vista do Estado, era inócuo, porque não podíamos semear a renitência.” Durante o período em que esteve na Academia foi simultaneamente responsável cultural da FDJ, a única organização de juventude autorizada na RDA. Alguns detractores de Merkel acusam-na de não ter apenas organizado visitas ao teatro e sessões de leitura, mas de ter “efectuado lavagens cerebrais pró-marxistas”. Merkel recusa ter feito agitação e propaganda. “É muito difícil do ponto de vista actual compreender e tornar compreensível como nós vivíamos. Onde se situavam as fronteiras do compromisso que cada devia encontrar para si próprio?”

O Muro sempre presente

A divisão alemã sempre fez parte da vida de Angela Merkel – até à construção do Muro, a família mantinha uma convivência estreita com os familiares na RFA. Recorda-se “muito bem” de nesse dia, 13 de Agosto de 1961, ver os pais a chorar na igreja durante uma prédica. O contacto manteve-se através do envio de pacotes, da família em Hamburgo, que transportavam um pouco do estilo de vida ocidental: “jeans”, sopas instantâneas, sabonetes. Mas foi preciso esperar 23 anos para que a sua mãe obtivesse autorização para se deslocar de novo à RFA, para participar no funeral da avó de Angela.

Quando, a 9 de Novembro de 1989, o Muro se abriu, Angela Merkel, ainda com o saco da sauna na mão – fora nesse local surpreendida pela notícia -, passou a fronteira na Bornholmer Strasse, com a intenção de telefonar a uma tia em Hamburgo. Festejou um pouco e regressou a casa. “No dia seguinte tinha de entrar cedo no trabalho” e além disso perturbou-a estar rodeada de tanta gente estranha. Só no dia seguinte, tendo avaliado a situação, celebra a liberdade na Ku”damm (a famosa avenida comercial berlinense Kurfürstendamm). Quatro semanas mais tarde adere à Demokratischen Aufbruch (Ruptura Democrática), uma das formações políticas efémeras do período de transição para a democracia na RDA. Talentosa com as palavras, capaz de formular de forma precisa e directa, é designada como porta-voz do movimento. Dava os primeiros passos na política profissional.

Em Agosto de 1990 a Demokratischen Aufbruch dissolve-se e Angela Merkel, desde Abril porta-voz do primeiro e único governo eleito democraticamente na RDA, conduzido por Lothar de Maizière, adere à CDU. Concretizada a reunificação das duas Alemanhas, a 3 de Outubro de 1990, a física seria nomeada, em Janeiro de 1991, ministra da Juventude e da Condição Feminina – aliás quase todos os lugares destinados a mulheres no terceiro governo de Helmut Kohl foram ocupados com mulheres oriundas da ex-RDA. Como conseguiu a jovem e inexperiente política do Leste atrair a atenção do gigante negro? Kohl, o historiador, considerava que o Gabinete Federal devia reflectir a nova realidade política alemã. Por isso uma mulher do Leste, jovem, ainda para mais protestante, encaixava-se no “puzzle” do poder. Por outro lado, o chanceler da reunificação queria rodear-se de pessoas que lhe fossem absolutamente reconhecidas. O primeiro encontro entre Merkel e Kohl não foi obra do acaso, mas aconteceu por iniciativa de Merkel. Dias antes das comemorações da unificação alemã decorreu em Berlim o congresso de “reunificação” da CDU com os movimentos democráticos de raízes cristãs da RDA. Nesse congresso, Merkel era um dos delegados da RDA. Aproveitando a ocasião a política, pediu a Hans Geisler, que viria ser ministro dos Assuntos Sociais da Saxónia, para a apresentar a Kohl. Tiveram uma longa conversa, que impressionou positivamente o chanceler. Voltaram a encontrar-se em Bona nos finais de Novembro, em vésperas das primeiras legislativas da Alemanha reunificada, que se realizaram a 2 de Dezembro. Depois de ler as actas da Stasi relativas a Angela Merkel, limpas, Helmut Kohl convenceu-se de que ela deveria integrar o Governo. Que o novo ministério da Juventude e Condição Feminina, fosse quase esvaziado de competências fazia parte dos cálculos do presidente da CDU. O animal político Kohl farejou a substância de que Merkel era feita e queria que ela amadurecesse para outros voos.

A menina de Kohl

Três anos após ter entrado na política federal, Angela Merkel, “Kohls Mädchen”, a menina de Kohl, como foi denominada durante muitos anos pela imprensa germânica, substituiria Klaus Töpfer ( director-geral do Programa Ambiental da ONU) como ministra do Ambiente e Segurança Nuclear. Como ministra, foi responsável pela Conferência de Berlim – a cimeira plenária das Nações Unidas na Alemanha – onde foi adoptado um compromisso sobre emissões nocivas, o documento precursor do Protocolo de Quioto.

Ficou célebre acesso de lágrimas que teve durante um conselho de ministros, ao aperceber-se que nas suas costas o chanceler e os liberais iriam bloquear uma proposta legislativa sua. Em causa estava a introdução de limites de velocidade e de interdição de condução em determinados dias devido aos elevados valores de ozono na atmosfera. Dez anos mais tarde, cenas como essa seriam impensáveis. “Tive de aprender a ser mais dura”, diz sem contemplações. E os que lhe fizeram frente sentiram isso na pele. Para quem só está na política há 15 anos, tem uma colecção considerável de escalpes.

Perdidas, para o social-democrata Gerhard Schroeder, as legislativas de 1998, Helmut Kohl que durante um quarto de século fora a CDU, tira as consequências e demite-se da presidência dos democratas-cristãos. Desafiando Cassandra, os conservadores refizeram-se depressa da derrota. A direcção renova-se. Wolfgang Schaeuble sucede a Kohl e Merkel é eleita com 92 por cento de votos como secretária-geral da CDU. Beneficiando do caos que cunhou o primeiro ano do Governo Schroeder, a direita vence os sufrágios regionais. No final de 1999, quando o Governo Schroeder parecia próximo do estertor, rebenta o escândalo do financiamento partidário que abalou até aos alicerces os democratas-cristãos.

Num célebre artigo publicado no “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, a 22 de Dezembro de 1999, Angela Merkel comete “parricídio”. Sem estados de alma, a secretária-geral acusa Kohl de prejudicar a CDU ao silenciar o nome dos doadores que alimentaram a contabilidade paralela do partido. “A credibilidade de Kohl, a credibilidade da CDU e dos partidos políticos estão em jogo”, escreveu na altura. O artigo levaria o ex-chanceler a renunciar à presidência honorária do partido. Os doadores, esses, continuam incógnitos. Schaeuble, o eterno príncipe herdeiro, vê-se envolvido no escândalo. Com Kohl, Merkel aprendeu aquilo que os alemães denominam “Willen zur Macht”, o desejo de poder, a mola inicial, o princípio do salto.

A direita precisa de alguém imaculado, fora do “sistema Kohl”, alguém insuspeito, alguém de Leste. Empurrada pelas bases como uma Joana d”Arc, Merkel é eleita presidente da CDU, em Abril de 2000, no congresso de Essen, com uma votação “soviética”: 96 por cento. Seria a primeira mulher a ocupar este cargo num dos dois grandes partidos alemães, como também já havia sido pioneira no de secretária-geral. Em Dezembro de 2000, na sequência dos remoques do cardeal de Colónia, Joachim Meisner, que considerava pouco edificante a líder de um partido cristão viver em união de facto, casaria na intimidade com o químico e professor universitário Joachim Saeuer. Ninguém fora informado. Nem os pais de Merkel. Há poucas fotos do casal: as das visitas anuais ao festival de Bayreuth e, recentemente, quando da visita à Alemanha de Bento XVI. Para ela, a esfera privada é inviolável. Joachim Sauer nunca será um “primeiro-marido”.

Casamento difícil com a CDU

À chegada à presidência da CDU seguiram-se tempos conturbados: a sua liderança é questionada pelos “barões” do partido. Em 2002, depois de semanas de tensão, cede a Edmund Stoiber, ministro-presidente da Baviera o papel de candidato contra Schroeder. Sabia que ainda não havia chegado a sua altura. Os principais obstáculos de Angela Merkel estão dentro do seu próprio partido. São Edmund Stoiber, Roland Koch, Christian Wulff, Friedrich Merz. Homens políticos cuja biografia parece decalcada a papel químico: católicos, pais, casados uma única vez, pertenceram à juventude democrata-cristã e são juristas. Homens obnubilados pela líder do partido: mulher, evangélica, física, casada pela segunda vez e sem filhos. “Nunca exclui a hipótese de ter filhos, mas não aconteceu. Tinha 35 anos quando fui para a política e esta questão não voltou a colocar-se. Talvez com 70 anos lamente não ter netos. Não sei.” O clube masculino precisava dela para levantar do chão o partido. Toleraram-na. Cometeram o erro de a subestimar. De Setembro de 2002 até agora, a presidente da CDU, consolidou a sua posição, afastando à boa maneira de Kohl, quem lhe pudesse fazer sombra. Somou êxitos, ganhando as eleições regionais em cadeia, conseguindo a maioria no Bundesrat, o conselho federal, governando “em pacto de regime” com a coligação social-democrata e verde. Sem Merkel não haveria grande parte das reformas da Agenda 2010.

Pensamento político clean

O pensamento político de Merkel, nalguns aspectos uma folha em branco, é cunhado pela racionalidade de uma cientista. Não conjuga política e emoção. É orientada por critérios de eficácia. Daí que o seu credo económico seja uma “nova economia social de mercado” e não o tradicional modelo de capitalismo renano. Recusa as comparações com Margaret Thatcher. “Eu sigo o meu próprio caminho. Eu sou eu.” Durante anos, evitou submeter-se à ditadura da aparência. Se nunca ninguém se importou com os casacos de malha de Helmut Kohl ou as suas gravatas indescritíveis, porque é que o seu penteado havia de ser motivo de chacota nacional? Por ser mulher, claro. Quando se tornou candidata a chanceler cedeu um bocadinho aos conselheiros de imagem: passou a usar cores mais vivas, embora se mantenha fiel ao conjunto de calca e casaco, maquilhagem mais marcante e um penteado que a favorece.

No plano da política externa é atlantista até à última fibra e será naturalmente franco-alemã. Sabe que, sem a determinação de George Bush, pai, a unificação alemã dificilmente se teria concretizado. Em parte também lhe deve a sua ascensão política. A mulher que aos 35 anos entrou para a política, aos 36 anos era ministra, oito anos mais tarde secretaria-geral da CDU, no ano seguinte presidente dos democratas-cristãos, e quinze anos decorridos sobre a reunificação se tornou na primeira mulher a suceder a Konrad Adenauer, continua a ser para muitos alemães uma estranha. Demasiado “ocidentalizada” para os “Ossies”, demasiado de Leste para os “Wessis”. Um produto da história alemã. Quem sabe a pedra que falta para completar a tarefa hercúlea de ultrapassar o “muro dentro das cabeças”?

A sua biografia mostra que sempre jogou muito alto. Para ganhar ou perder tudo. Até hoje ganhou sempre.

* Adaptado de um texto que escrevi para a Pública

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6 thoughts on “Para compreender Merkel*

  1. Helena: referi este texto no ‘Escafandro’ e no ‘Delito’.

    A foto está fantástica. Mas – posso ser mau? – é um bocadinho como a foto que uma fã adolescente tiraria junto do vocalista dos – como é que se chama a banda daí que põe todas as miúdas a gritar? Ah, já sei – dos Tokio Hotel.

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  2. Fico feliz por terem dado à menina Merkel 45 minutos de concentração antes de mergulhar.
    Infelizmente, porém, não creio que a Zona Euro tenha mais 45 dias para a sra. Merkel refletir antes de implodir.

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  3. Estes retratos de uma pessoa importante são muito giros, porém, não creio que a Alemanha, um país tão grande e importante e com tanta gente inteligente, possa ser governada por uma só pessoa.
    Todos nós temos o feitiço dos reis e das rainhas, personagens da nossa infância. Porém, no mundo real eles já não existem. Nenhum país importante é governado por um só homem ou uma só mulher.

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