Zrzuty*

13 de Dezembro 1981. Viviam-se dias de chumbo, eléctricos e fascinantes na Polónia. Enredada no colapso económico e na violência política, a liberdade era uma flor de inverno, grito de cor entre a neve. O conselho militar tomou o poder em Varsóvia, milhares foram detidos, as manifestações calcadas com bota militar. Escasseava tudo, menos a coragem e a fé.

 Michael era um miúdo de 14 anos de Bayreuth que vivia a aventura da sua curta vida. Sentado ao lado do pai no banco do camião atravessou nessa noite gélida a cortina de ferro até Lauban, na Polónia.

Abria os olhos de espanto ao ver as filas à porta das lojas. E na montra de uma loja de electrodomésticos duas lâmpadas como única mercadoria. Consigo Michael levava uma história infantil muito popular na Alemanha, com o urso Petzi. Dentro do livro colocou uma carta: “quem receber este livro escreva por favor para Zeppelinstrasse”. A carta que lhe traçaria o destino viria de Marta, uma adolescente polaca de cabelos negros.

Michael e o pai não foram os únicos alemães a responder a falta de alimentos no país vizinho. Enquanto nas ruas de Bona se protestava contra o “imperalismo americano”, Oriana uma estudante universitária de Heidelberg, sentava-se pela primeira vez ao volante de um camião. Tinha lido que as mães polacas estavam desesperadas porque não tinham leite, nem comida para os filhos. Muitas cometiam suicídio. Decidiu agir e reunir donativos que entregaria em mãos a organizações católicas polacas.

 Nos primeiros meses de 1982 o governo de Helmut Schmidt decretou que as encomendas de ajuda para a Polónia ficariam isentas de portes. A estação de correios de Hannover que recebia os pacotes teve de contratar quatro vezes mais pessoal. Só durante os primeiros meses foram enviados 8,5 milhões de encomendas. 35 mil por dia, no valor de 200 milhões de marcos.

Nos anos seguintes da década de oitenta os alemães remeteram 30 milhões de pacotes. Leite, fruta, medicamentos, seringas. Tratou-se da maior acção de ajuda ao Leste Europeu desde a fome de 1921.

Ano após ano, até 1989, Michael acompanharia o pai na entrega dos pacotes e nunca perderia uma ocasião de visitar Marta. Casariam em 1992, em Lauban, numa cerimónia celebrada por pelo padre católico de Bayreuth, que iniciou a recolha de donativos para a Polónia, e pelo sacerdote polaco que os distribuía.

Só o livro do urso Petzi é que já não existe. Marcela a filha do casal, agora com 15 anos, recortou-o numa miríade de pedacinhos.

PS – As histórias de Michael e Marta, de Oriana e de tantos outros podem ser vistas no documentário Paket der Solidarität“, de Lew Hohmann, que estreia a 21 de Dezembro e passará na televisão polaca estes dias.

*Zrzuty – é o nome dado em polaco a esta ajuda  que significa, numa tradução livre, “lançamento de pára-quedas”, numa alusão aos lançamentos feitos pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s