Cabul aqui ao lado

Lembrar é, cada vez mais não recordar apenas uma história, mas ser capaz de recordar uma imagem. Momento embalsamado que nos persegue. Que se fixa na retina. Coleccionei algumas imagens assim, que nunca me deixam.

Agora que Cabul se vai mudar para Bona, para aqui bem ao lado da rádio, a pretexto da Conferência sobre o Afeganistão, passam-me pelo cinema da mente imagens de Herat, de Kandahar, de Cabul. Locais que nunca visitei e onde provavelmente nunca irei. Sobretudo fotografias de mulheres, de meninas, de vidas na berma da estrada para coisa nenhuma. O que fazer com o sofrimento distante? E se o mal for realmente imparável?

“Na medida em que nos sentimos solidários, sentimos que não somos cúmplices das causas do sofrimento. A nossa solidariedade proclama a nossa inocência, assim como a nossa impotência”. As palavras são de Susan Sontag e apetece-me querelar com elas. Concedo que a particular acusação de algumas imagens acaba por se diluir, sobretudo em profissões cínicas como a minha, e a que comoção é demasiadas vezes passageira. Lágrima quente que escorre e se evapora, sem se tornar sal.

Só que essas imagens terríveis de meninas-mulheres atacadas com ácido, amputadas, batidas, condenadas à prisão móvel da burqa, não pessoas mas volumes, obcecam-me. Elas são eu e eu sou elas. Não tenho o direito de lhes virar a cara. Nem a fazer zapping mental. No Afeganistão uma vida tem valido pouco, a das mulheres ainda menos.

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