Sobre o poder do jornalista e a sua impotência

Esta é a história de Jusu e de Bartholomäus, seu filho. Uma costela de sublevação. Posso adiantar o desfecho: exorciza-se o medo, dilui-se o ódio, mas o que fazer com o esquecimento?

“Manga longa ou manga curta?”. Zack. Mão esquerda. Plop. Zack. Mão direita. Plop. Riso cínico na boca de crianças que não tiveram infância. As mãos decepadas são atiradas para um saco repleto de outros membros. Dementes troféus de guerra.

A biografia de Jusu podia ter acabado ali, naquele condomínio de dor absoluta a céu aberto, debaixo daquela mangueira na Thompson Street. Mas aquela morte não lhe estava destinada.

Jusu é um dos sobreviventes da guerra civil na Serra Leoa, que entre 1991 e 2002 terá feito entre 50 mil a 200 mil vítimas, não há números exactos. Mais de cinco mil foram mutilados. Braços, mãos, pernas, olhos ceifados por machetes. Homens, mulheres e crianças exibem o toque de lepra da guerra. Mutilar e não matar é a barbárie calculada.

Antes da guerra Jusu era chefe de segurança do Barclays Bank em Freetown. O filho de agricultores pobres tinha quebrado a espiral da miséria e conquistado uma versão africana do sonho americano: uma vida ordenada, um emprego seguro e razoavelmente pago. Até 20 de Janeiro de 1999. Já sem mãos correu para a casa de uma vizinha que lhe ligou os cotos com fraldas e farrapos. E gritou, gritou toda a noite. Quatro dias mais tarde seria internado no Connaught Hospital e implorou por uma injecção letal. O médico recusou. “Quem sobrevive no seu estado durante tantos dias sem ajuda médica, sobrevive a tudo”.Passou três meses em convalescença na cama 14. Sem paliativo para dores. A guerra esgotou-os.

A história de Jusu, publicada em Fevereiro de 2000 na revista alemã Geo emocionou a paróquia de St. Matthäus em Minden. Mil e quatrocentos euros foram doados e transferidos para Freetown. Na moeda da Serra Leoa equivaliam a 1,5 milhões de leones. Suficiente para Jusu fundar, ainda nesse ano, a Amputees and War Wounded Association of Sierra Leone. A associação lutou por indemnizações para os mutilados, obteve doações de próteses do estrangeiro e empenhou-se na reconciliação nacional. Jusu foi fotografado com Paul Wolfowitz e depôs contra Charles Taylor.Em 2001 nasceu o mais novo dos sete filhos de Jusu. Foi baptizado com o nome do jornalista alemão da Geo: Bartholomäus.

Por falta de fundos a associação de amputados deixou de funcionar. O Governo de Freetown esqueceu as cicatrizes dos sobreviventes. As organizações não-governamentais, que se digladiavam no pós-guerra para apoiar as vítimas levantaram amarras. O circo da comoção é nómada.

A dor-fantasma que “sentem” os mutilados é companheira assídua, mas Jusu tenta não se atormentar com o que vida fez dele. Perdoou ao comandante “Cuthands”. “Deixei o ódio em Meca”. As suas próteses têm de ser substituídas ou pelo menos reparadas. Não tem como o pagar. Também não sabe como pagar a escola de Bartholomäus. “ Leva-o contigo para a Alemanha, eu dei-lhe o teu nome, tu és o seu segundo pai”. O miúdo, agora com dez anos, que ouviu a conversa com o jornalista perguntou: “levas-me contigo, pai Bartholomäus?”

Molhei o jornal ao ler a extraordinária reportagem de Bartholomäus Grill no Die Zeit. Um grito contra a amnésia.

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15 thoughts on “Sobre o poder do jornalista e a sua impotência

  1. Não resistirei em citar-te amanhã na conferencia do Porto. Ou isto que andamos a fazer é esse mesmo grito contra a amnésia ou não andamos cá a fazer nada.

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  2. Hoje estive no escritório e vi a revista da qual tu escreves aqui.
    Fiquei com lágrimas nos olhos depois de ter lido este post. Coitado de Jusu 😦

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  3. Infelizmente, uma entre milhares ou milhões de histórias semelhantes! Mas continuamos a ouvir lacónicamente quem nos (des)governa e tão mal trata o Mundo…mas pior do que isso, é que campanha após campanha lá vamos, quase todos, botar o precioso voto na urna de quem hipócritamente nos trama, tiraniza ,humilha e oprime!

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  4. Na Serra Leoa as histórias são terríveis – mais ainda do que noutros sítios. A questão do que nós andamos lá a fazer é recorrente. E hoje penso que poucas vezes não andamos a fazer muito, a não ser a malhar em coração frio – as pessoas do lado de cá não ‘lêem’ a realidade de ‘lá’ com a generosidade. Lêem-na apenas emocionalmente – e passa-lhes depressa o choque, o nojo ou a indignação. Às vezes, um cavaleiro andante, mesmo histérico, faz algo, no entanto. O Tony Blair acabou a guerra da SL em poucos dias, porque sim – mas só depois de a guerra ter lavrado durante uma década…
    Já agora, uma sugestão de leitura, que é grande jornalismo em grande literatura: ‘Soldiers of Light’, de Daniel Bergner. Inferno e redenção.

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    1. Obrigada pelo comentário e pela sugestão de leitura de leitura. O problema é exactamente esse fosso entre “lá” (que muitos de “cá” não conseguem ler porque lhes falta a geografia)e “cá” (nós os que estamos do lado confortável da vida) e rapidez com nos esquecemos de África e das suas múltiplas tragédias.

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  5. Tão chocada.
    Sem nada que não um imenso murro no estômago.
    Desculpe,mas,que porr@ de mundo é este ?????
    Todos « brincamos » de « felizes »…. « ignorando » o que se passa…ao nosso lado.
    Nada mais.

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