A distância entre a banalização e a barbárie é curta

Como foi possível que uma célula clandestina nacional-socialista assassinasse, de Munique a Rostock, nove estrangeiros e uma mulher polícia, assaltasse 14 bancos, realizasse um atentado bombista que feriu 22 pessoas e se mantivesse incógnita durante mais de uma década? Que sabiam os serviços secretos e o que silenciaram? Terá sido mera incompetência da Verfassungsschutz ou vingou o preconceito que considera o radicalismo de direita como um cão que ladra e não morde? É longa a lista de perguntas ainda sem resposta.

Com a atenção centrada noutras formas de extremismo – o islâmico e o de extrema-esquerda – a Alemanha parece ter sido apanhada de surpresa por outra modalidade de radicalismo, um mais incómodo: o de extrema-direita. E os sinais eram visíveis. Desde a reunificação alemã em 1990 que mais de uma centena de mortes tiveram motivos racistas. Anualmente verificam-se mais de 15 mil agressões violentas ligadas à extrema-direita.  

 Reagindo à “vergonha nacional”, palavras da chanceler Angela Merkel, sobe de tom o coro daqueles que pedem a proibição do NPD, um partido que evoluiu de um clube de saudosistas do III Reich para uma estrutura autoritária e bem organizada com excelentes contactos no meio “skinhead” e com propensão para a violência. Por muito abominável que o NPD seja – sem a menor dúvida que o é – o accionismo proibicionista disfarça um problema que está a montante: em parte do Leste da Alemanha e em regiões mais conservadora como a Baviera continua a existir um clima favorável à xenofobia, ao racismo e ao anti-semitismo. Face a isto muitos preferem uma insensata e amnésica fuga para a frente. A distância entre a banalização e a barbárie é curta. Não é preciso lembrar isto à Alemanha. Ou será?

 Recordo-me do dia 3 de Outubro de 2001 e de um texto que na altura escrevi para o Público.  

 “No mesmo dia em que em toda a Alemanha se celebrava a liberdade, a democracia e o décimo primeiro aniversário da reunificação, algo que não seria possível sem o contributo norte-americano para a estabilidade do país nos últimos 50 anos, novecentos neonazis do NPD marcharam em Berlim, não ocultando a satisfação pelos atentados terroristas de Nova Iorque e Washington. Abandonando a discrição a que se havia remetido desde que sobre ele pende um pedido de interdição no Tribunal Constitucional de Karlsruhe [em 2003 este pedido seria arquivado e o NPD continua a existir], o NPD, o mais violento dos três partidos de extrema-direita da Alemanha, desfilou provocatoriamente pela Kurfuerstendamm, uma das mais elegante artérias comerciais da capital alemã – onde, antes da tomada do poder pelos nazis em 1933, a maioria das lojas pertencia a judeus, depois forçados a vender as suas propriedades no âmbito dos programas de arianização antes de fugirem ou serem enviados para campos de concentração. A polémica manifestação dos extremistas foi autorizada pelo tribunal administrativo da cidade, não obstante todas as advertências da polícia e as críticas do Senado de Berlim. O intuito da marcha dos cabeças-rapadas do NPD, que se define por um ódio etnocêntrico contra o estrangeiro, é claro: capitalizar os sentimentos de medo e angústia que o terror de 11 de Setembro causou nos alemães e dirigi-los contra os estrangeiros que vivem no país, mais de 7 milhões, incluindo 3 milhões de muçulmanos”.

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