Não cabe no script. Dirão alguns que este não será o melhor momento para se falar sobre pobreza em África. Com as câmaras atrás dos despojados europeias e os holofotes apontados para os caixotes do lixo gregos. Discordo. Este é seguramente um dos melhores momentos para se olhar para a pobreza extrema. Para os milhões que vivem com menos de dólares por dia e ano sem saber o que é uma casa, uma escola, um hospital, nem água potável ou saneamento básico.
Em demasiados países africanos pude observar o cinismo da política de interesses ocidentais – e dos BRIC, basta ver o que o Brasil, o de Lula e o da Dilma, anda a fazer por Moçambique – e que a herança colonialista sobreviveu à(s) independência(s). Achille Mbembe, um dos mais brilhantes teóricos dos estudos pós-coloniais, é acutilante na sua crítica: “nós [os africanos] somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra”.
Muito se tem escrito acerca da ascensão dos BRIC e sobre o “deslizamento” a oriente do poder económico. Contudo, a sucess story económica da primeira década deste século é africana. Dos dez países que mais cresceram entre 2001 e 2010 seis foram africanos, com Angola no topo da tabela e Moçambique em oitavo lugar. Segundo a The Economist nos próximos cinco anos as economias africanas deverão continuar a crescer ultrapassando as asiáticas.
Só que a cornucópia da riqueza é restrita a alguns: mais de metade da população destes países vive na mais abjecta pobreza. A explicação em “economês” é a simples: “ as políticas de redução da pobreza centradas apenas no crescimento económico terão um impacto mais limitado nos casos em que os níveis iniciais de desigualdade são elevados e persistentes”.
Traduzindo: enquanto os políticos africanos se continuarem a comportar como abutres e os petrodólares esmagarem qualquer resquício de decência ou consciência continuaremos a ter os “pobrezinhos” servidos pelo Natal a apelar à lágrima das sociedades confortáveis. Os africanos merecem mais, muito mais que isto.

O Luis Araujo da SOS Habitat em Angola chamou-lhe “endocolonialismo”, explicando-me a forma como as elites africanas cuidam do bem comum.
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Não sei se essas altas taxas de crescimento económico africano têm muito significado, dado que as taxas de crescimento demográfico africano também são muito altas.
O que interessa, de facto, não é a taxa de crescimento do PIB, mas sim a taxa de crescimento do Pib per capita. Só isso nos diz se o país está de facto a ficar mais rico, ou apenas a crescer em tamanho.
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