Um funeral inacabado

Giorgios Papandreou gosta de comparar a odisseia actual da Grécia ao regresso de Ulisses a Ítaca. Depois anos preenchidos por adversidades, provas de coragem e astúcia, a história acaba com um happy end.

Desengane-se no entanto o primeiro-ministro grego. A situação que se se vive na Grécia evoca sem dúvida uma aventura marítima, mas uma de final trágico: a viagem inaugural do Titanic. É como se com o navio, no breu da noite, a rumar  a toda a velocidade em direcção ao icebergue, o capitão decidisse perguntar aos passageiros se preferem marcha à ré ou marcha à vante.

Dias depois da mais recente cimeira de “salvamento do euro”, as circunstâncias não podiam ser mais adversas ao anúncio do primeiro referendo grego  desde de1974. Quererá Papandreou transferir para os cidadãos gregos a responsabilidade política por dilemas como “euro ou dracma”, “zona euro ou marginalização”, “pobreza ou fome”? Com o país à beira da bancarrota e um exército de descontentes nas ruas, o risco tomado em nome do “ reforço do país na zona euro e no plano internacional” não é despiciendo, pelo contrário a consulta popular grega poderá ter consequências imprevisíveis para toda a Europa. Invocar a democracia para salvar a pele política parece-me, mesmo usando de alguma benevolência, ser imoral.

Em abano dos factos diga-se que neste momento há uma maioria silenciosa , a que não sai às ruas, e que apoia as medidas de austeridade do Pasok. Sete em cada dez gregos são favoráveis à permanência do país na moeda única, pelo que há uma hipótese de Papandreou vencer o referendo. Mas as preocupações da chanceler Ângela Merkel e dos restantes líderes europeus não são à toa. E se os gregos decidirem penalizar um governo cada vez mais impopular?   Ou não a um regime que promete reformas mas não tem a vontade e a força política para as realizar? Sem querer ser Cassandra um não mergulharia Atenas no caos seria o requiem da zona euro a 17.

Visto de Berlim, a ausência de reformas na Grécia constitui uma iniquidade insustentável por muito mais tempo. E a chanceler is not amused com o cavalo de Tróia de Papandreou. A explicação mais fácil (e enfermada de preconceitos) para a crise da moeda única  tem sido acusar a Alemanha de “imobilismo”, agora que Berlim salvou Atenas e esta lhe serve ( e à Europa) uma maçã envenenada talvez fosse altura de rever os discursos sobre a “solidiariedade”. Já sei que esse debate não se fará, mas vale a pena reflectir sobre o assunto.

Anúncios

2 thoughts on “Um funeral inacabado

  1. Vou directamente ao ponto fulcral: não consigo deixar de sorrir ao tentar visualizar Merkel not amused.

    Agora o acessório: tendo sentimentos contraditórios quanto à ideia do referendo (não me parece necessariamente mal que exista um referendo, considerando até que o governo grego se vem relevando incapaz de implementar as medidas acordadas), concordo com tudo o resto (a crítica ao método, ao discurso, ao timing,…).

    Gostar

    1. Eu defendo referendos. Neste caso concreto ( e neste timing concreto) vejo-o como um instrumento de chantagem política mascarado de instrumento democrático.
      A escolha dos gregos é entre a peste e coléra. Infelizmente, para eles e para nós ( Portugal e Alemanha no meu caso ).

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s