Aos quarenta

Dizem-me que  é tempo de balanço. De me debruçar na varanda da vida. Convoco os anos em traços breves.

No pátio da infância havia o embalo da minha mãe sereníssima e a areia de que se constroem os sonhos. Cedo me fascinaram as palavras e o atlas. Eram uma fechadura para o mundo O meu, que era minúsculo, naquela Lisboa antiga, provinciana, e o outro distante que encerrava possibilidades infinitas.

Cresci trepando às árvores do Jardim Botânico, soberana de castelos de folhagem. Passei tardes de domingo sentada nas estátuas do Padrão dos Descobrimentos, a escutar a letra e a música dos ventos e a prometer-me o Império. Travessias de água.

Da infância ficou-me uma amiga. Por maior que seja a distância que nos separa não se apaga em nós esse nó. Promessa de eterno retorno à menina e moça que fomos.

Com o passar dos anos outros amigos chegaram. Instalaram-se nos recantos da minha vida, habitam todos dentro de mim. Não são suficientes as palavras para lhes agradecer os sorrisos cúmplices, as noites passadas a conversar, os conselhos, o carinho. A gratidão é um dos grandes sentimentos que nunca passa de moda.

No Verão da vida o amor entrou e “depois de ti não há caminhos”. Provei a doçura da maternidade, o novelo do afecto infinito. Toda a beleza do mundo contida no sorriso das minhas filhas.

Cumpriu-se o vaticínio da minha professora primária: palavras e viagens fizeram-se profissão. O mundo abriu-se como uma manga madura.

Aos quarenta atravessei desertos, percorri continentes, provei iguarias singulares, bebi água barrenta, fui picada pelos mosquitos, olhei nos olhos os leões. Conheci “personalidades importantes” e os invisíveis aos olhos do mundo que passa a correr. Encontrei sobretudo a serenidade. E posso dizer com propriedade que sou feliz. Cada gazela tem o seu leão.

As rugas leves que me sulcam a testa e os fios brancos que me mancham os caracóis são a geografia dos dias que vivi. Não os trocava pela doçura do meu rosto aos vinte.

Aos quarenta falta-me visitar a Austrália e escrever o livro adiado. A vida será sempre pouca. E eu ainda sou uma miúda à varanda a olhar para o mundo.


11 thoughts on “Aos quarenta

  1. Congratulations, Lena. Wonderful text!
    Challenging however to identify and bring “almost half-century” life’s feelings, smells, sounds to words… “If a composer could say what he had to say in words he would not bother trying to say it in music. – Gustav Mahler”
    I would, however, have wished a few words dedicated to music and literature.

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  2. Que lindo, Lena! Fico muito feliz de ver que voce chegou aos quarenta com uma bagagem cheia de lembranças e experiências boas. A serenidade já estava em você, e é ela que te faz ver linda a vida, mesmo quando enfrentas suas agruras. Parabéns! E vamos ao livro e à Australia!

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  3. Faltam-me adjetivos para lhe dar os parabéns pela qualidade deste “post”. É poesia de primeira água. A escrever assim, o tal livro, é um desperdício ser apenas um. Pelos mundos onde foi vivendo, pode deixar um rasto narrativo que nos faça questionar se será este o caminho. E essa é uma questão que nos deixa receosos da verdade contida na resposta. “Quão intensa é/foi a minha vida?” – Pode/deve começar a escrever!

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