Pertenças

Quase não há trânsito na estrada. Passo a Avenida Robert Mugabe e alguns quilómetros mais à frente  o rio Bismark.  A paisagem é seca,  rochosa, com poucas árvores. Vários babuínos estão parados na berma. O horizonte não quer acabar. O termómetro marca 40 graus. Chego a Rehoboth, do hebreu “espaço amplo”. Passarei os próximos dias  aqui, numa rádio comunitária, instalada no Le Palace, um restaurante pintado de rosa forte.

Levam-me ao meu B&B. Uma espécie de motel namíbiano, o melhor da cidade dizem-me, gerido por uma senhora com nome de maquilhagem, Maybelline. A “rua” é de areia. O quarto – sem ar condicionado e mobiliado à moda alemã dos anos setenta (viria a descobrir mais tarde que os móveis vieram todos da Baviera) – fica ao lado da lavandaria e em frente à cozinha. Permite que se dêem dois passos para cada um dos lados da cama. E não tem internet (estou a piratear o Wifi de um desconhecido). Ligo o filtro da serenidade. Faz de conta que estou num parque temático. Ohmmmmmm.

Convidam-me, sem aceitarem recusa, a assistir a um casamento “amazing”. Estou tramada. Trezentos convidados, duas horas de discursos em Afrikaans. A decoração parece ter sido feita por um demiurgo do Benfica ou do Manchester United. A noiva, a madrinha, e a maioria dos convidadas, de toilletes criativas, exóticas,  que acentuam as formas, estão vestidas de vermelho.Os miúdos que participavam no cortejo usam camisa vermelha e  têm uma rosa plástica na lapela com  uma luzinha a piscar. Mostra-se que se tem dinheiro, mas também orgulho. Os Baster são orgulhosos e o Le Palace o melhor restaurante de Rehoboth. Consigo regressar ao B&B antes das 21 horas.

De manhã converso longamente com a Maybelline. Oiço-a em silêncio, atordoada  pela torrente das palavras. Desfiou agruras da vida pessoal – viver sob o apartheid, um marido alcoólico, a viúvez – e a reconciliação com  a vida. Casou com um alemão,“os melhores homens do mundo”, que passou por aqui como turista. Disse-me que mesmo em silêncio se sentia bem ao lado dele. Daqui a duas semanas estará na Baviera profunda para trazer o seu Erik para a Rehoboth. Falámos do fascínio do desconhecido e a incapacidade de amar o que não se compreende.  A milhares de quilómetros de distância, quase abaixo do Trópico de Capricórnio e a Alemanha aqui tão perto.

Depois de ultrapassada uma certa estranheza inicial começo a conseguir espreitar pela brecha.

Antes de partir para a Namíbia nunca tinha pensado se algo, além da obra de Ruy Duarte de Carvalho, me ligava a este país. Tenho várias pátrias e pertenças: a Guiné onde nasci, Portugal que trago no passaporte, a Alemanha, o país que escolhi para viver há mais de um década. Descobri o atlas.

Os primeiros europeus a pisar solo namíbiano foram dois portugueses: Diogo Cão e Bartolomeu Dias. A ferocidade do Namibe desencorajou-os a prosseguir a expedição para o interior do país. Já no século XIX o Império alemão seria a potência colonial.  Rehaboth, foi fundada pelo missionário Heinrich Kleinschmidt, em 1844, e tornar-se-ia a capital dos Baster, literalmente, “bastardos” em Afrikaans ( mestiços descendentes de colonos europeus e de mulheres da etnia Nama ). O termo Konzentrationslager (campo de concentração) surge pela primeira vez num telegrama que o chanceler do Reich, príncipe von Bülow, enviou ao comandante das tropas coloniais, em 11 de dezembro de 1904, ordenando a construção de um campo, para que ali ficassem reunidos os hereros (etnia namíbiana). A Namíbia foi uma espécie de prefácio do Holocausto. Actualmente a Alemanha é um dos países mais envolvidos na ajuda ao desenvolvimento namibiano. E é por isso que aqui estou. Como se tudo isto fosse pouco, o  Dia Mundial da Liberdade de Imprensa nasceu, há vinte anos, atrás na mente de um grupo de jornalistas reunidos em Windhoek.

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3 Comentários

Filed under Alemanha, África, Namíbia

3 responses to “Pertenças

  1. jaa

    Excelente texto, simultaneamente pessoal e informativo. Nascido e criado na “metrópole”, conhecendo de África apenas Cabo Verde (e, dentro de Cabo Verde, apenas a ilha de Santiago), a Namíbia é talvez o país africano que mais me atrai, não sei bem porquê.

  2. A Namíbia é um dos mais belos países africanos. Se tiver oportunidade visite-o.

  3. Pingback: Oshakati | Domadora de Camaleões Blog

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