Casada, já nem lágrima tive.
Viúva perdi olhos para tristezas.
O destino da mulher é esquecer-se de ser.”
Mia Couto, in Idades, Cidades, Divindades
Há conversas que são como alguns rios moçambicanos, plenos de bancos de areia. Levam-nos a desviar a rota e a parar onde não temos mapa. Numa dessas conversas uma mulher falou-me do seu casamento. Ou da ausência do amor nele. Disse-me que em menina ensinaram-lhe que ser mulher é ser paciente e conformar-se. Em Gaza, província onde nasceu, a mulher para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos. E muitas delas são prisioneiras e reféns toda a vida. Sujeitas a todas as humilhações.
Olhando-me nos olhos, sem uma lágrima, falou-me das rivais nos amores do marido, de aprender a viver na destituição, do divórcio que não pode ser. Fiquei desconcertada, ouvi-a como quem assiste a um suplício. Ela não é humilde, frequentou a universidade, trabalha e veste como uma europeia. Quantas haverá como ela nesta Maputo ?
Já tinha lido muito sobre a violência doméstica em Moçambique, nas obras da Paulina Chiziane e nas monografias, mas desconhecia-lhe um rosto.
A história desta mulher recordou-me a Kusungabanga, que todos sabem que existe mas de que ninguém quer ouvir falar. Kusungabanga significa em língua ndau significa “fechar à faca”. É praticada pelos mineiros de Manica quando partem para as minas sul-africanas. Para assegurar a fidelidade das mulheres, os homens cosem com agulha e linha a abertura vaginal das companheiras. A mais recente vítimas mortal desta forma bárbara de opressão, tinha 26 anos.Morreu, em Maio de 2011, da hemorragia.
Estas mulheres precisam que se fale delas. As palavras que as nomeiam, as histórias que as contam, modelam-lhe a verdadeira existência. Porque o destino de ser mulher não é esquecer-se de ser.

Valha-me Deus, diga-me por favor que isso não é verdade! Ou que pode não ser… Trabalhei em Nampula e na Zambézia em hospitais e maternidades, vi muitas doenças horríveis, mas nunca vi mutilações e barbaridades desse calibre… Quero muito acreditar que entre os macuas não existem essas práticas.
(um) beijo de mulata
GostarGostar
Seria bom que nao fosse… A WLSA denuncia esta prática e ela é citada em vários estudos. Felizmente, se esta palavra se pode empregar aqui, é residual (embora aceite pela comunidade local).
Um beijo
GostarGostar
E quando pensava ter já lido todos os horrores, aqui está mais um… Já uma personagem do comediógrafo Terêncio dizia que não há nada mais triste do que ser mulher.
Apetece começar aos gritos. Não se consegue cortar de vez estes padrões de comportamento? Não se consegue dar poder às mulheres para acabar com eles?
GostarGostar
Sob o manto da “cultura tradicional” aceitam-se estas indignidades. Gi é muito complexo mudar mentalidades, algo está a ser feito aqui mas ainda é muito, muito pouco.
GostarGostar
Oops – não era Terêncio, era Plauto.
GostarGostar
Essa do “fechar à faca” já vem do século 16 e é referida num poema que aparece na coletânea Poesias eróticas, burlescas e satíricas da Natália Correia. Cito, parcialmente, de cor:
Diferentes maravilhas
De uso e variedade
Que em …, em tenra idade
As mães cosem as filhas
Por guardar virgindade.
Fica a carne tão colada
Que, quando vem ser casada,
Com faca se há-de romper;
Sem doutra arte poder ser
A tal virgem violada.
Descreve um uso que um português observou, salvo erro na Índia.
GostarGostar
E ? Deixa de ser brutal por isso?Deixa de ser uma violacao dos direitos humanos? A MFG é milenar e referida em milhares de fontes.
GostarGostar
Claro que não deixa de ser brutal. Só pretendo dizer que é algo que os portugueses já conheciam há muitos séculos.
Um outro ponto interessante é que, no poema que citei, são as mães que fazem isso às filhas, e não os maridos às esposas. Ou seja, a brutalidade é cometida por mulheres e, de facto, sobre as suas filhas.
GostarGostar
Luís, a MGF tem sido perpetuada pelas mulheres. Mas a causa última é o homem. Se tiver alguns minutos visite o seguinte link
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,6633739,00.html
GostarGostar
Gostei tanto do seu texto que tomei a liberdade de indicá-lo no meu post sobre o Dia da Mulher Moçambicana. Parabéns! http://agramadavizinha.com/2012/04/08/7-de-abril-dia-da-mulher-mocambicana/
GostarGostar
Muito obrigada. Vive em Moçambique?
GostarGostar
Olá, Helena, vivo sim, em Maputo. Dia 22 de Abril, faço 1 ano de casa! 😉
GostarGostar
Adoro Maputo! Vou contactá-la quando estiver aí.
GostarGostar
Vou aguardar! Abraço.
GostarGostar