Os barcos dos pescadores deslizam lentamente na água do mar largo que não se agita, acariciando o areal com um suave marulhar. No horizonte mar e céu abraçam-se numa única pincelada de azul. Gaivotas e albatrozes voam baixo. Uma brisa levíssima e quente despenteia as palmeiras da Marginal de Maputo.
Alinham-se capulanas presas num estendal, exóticas velas ao vento. Divididas entre o desejo de partir e ter de ficar. Nesta minha cidade emprestada e provisória a vida é feita de histórias de imaginação, de mistérios e de viagens.
O trânsito desliza com tropical mansidão. Desperta-me os sentidos o cheiro intenso a frango e a espetadas no carvão, feitas na berma da estrada. Delícias que ficam por provar por europeia prudência.
Ainda extenuada das longas horas a atravessar o continente num passáro de metal – acompanhada por um desconhecido histriónico, excessivo, que aparentemente temia o silêncio – saboreio na Costa do Sol a luz dourada da tarde de sábado que se acaba. Aspiro com prazer a tranquilidade. Não consigo desprender o olhar das águas planas e quietas, daquele universo líquido que me falha a maioria do ano.
Alguém disse que os homens têm muito mais para ser visto do que natureza. Nalguns momentos pode até ser verdade, porém neste fim de tarde, na serenidade da varanda, tudo é muito simples. Sou só eu, o Índico e um bocado de paraíso (que de tempos se pode tornar num inferno, mas essa é outra “estória”).