Everyone’s favorite city

O cais imperturbável, sereno, contemplando o Pacífico com o vagar das ilhas. As ondas não sossegam e as gaivotas roçam a espuma, num namoro breve.  Cheira a sal  e a fresco. Ali a cidade é perfeita. Em estado de retrato. Mesmo em dias sem brilho e sem cor. Mesmo quando a neblina a abraça e me eriça os cabelos. Mesmo quando o dançar da brisa me enregela.

Durante mais de meio século – de 1898 a 1958- por ali passou a procissão enlouquecida, tumultuosa, dos que entravam em San Francisco. Depois a Bay Bridge, que rivaliza em beleza com a luminosa Golden Gate, deu-lhe folga. O “progresso”, a mais volátil de todas as feras, aprisionou o Ferry Building numa auto-estrada, divorciou-o da cidade, numa exclusiva infelicidade.

O terramoto de 1989, que como todos os terramotos teve a vocação de desordenar a paisagem e desobedecer aos homens, derrubou a Freeway, que cortava o acesso público ao oceano e desfigurava o Ferry Building. Saíram os carros, entraram as pessoas, as livrarias e os cafés, os restaurantes, a paleta de Van Gogh do  Farmers Market, a vida.

Saboreio um cappuccino no Peets, passo os olhos pelo San Francisco Chronicle, leio que Deus irá ter um papel na campanha presidencial norte-americana. Holy Father give us back our AAA rating?

Saio do Ferry Building. À distância de um olhar, Alcatraz, registo da humana desumanidade. A prisão que já foi morada de temidos criminosos – o gangster de Chicago Alphonse “Scarface” Capone, Machine Gun Kelly ou Robert “Birdman” Stroud. Diz-se que seria a mais implacável das prisões americanas – celas exíguas, disciplina rígida, períodos de estrito silêncio. Desembarcados das suas vidas, toda a paisagem lhes doía: à distância de um olhar a inalcançável San Francisco fazia mais só a solidão.

Se houvesse uma melodia para San Francisco seria feita de acordes dissonantes. De cable cars, mansões vitorianas e arranha-céus. De colinas, ruas íngremes e de mar. Boémia, mundana, lasciva, liberal, criativa, snob, conservadora, caótica, deslumbrante. E sobretudo uma sobrevivente. A “everyone’s favorite city” é como o coração de certas pessoas: cabem lá todos, mas a ninguém se entrega.


3 thoughts on “Everyone’s favorite city

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s