Wild west

Oakland, Califórnia. Poc-poc-poc-poc-poc. Parecem pipocas e são tiros. Uma tristeza espessa paralisa a oitava cidade americana. É uma war zone. Mais mortífera que o Iraque. Milhares de gangbangers, adolescentes e jovens adultos, afro-americanos ou latinos, lutam pelo controlo das ruas. Numa guerra sem trégua, nem solução à vista. Graffiti por graffiti, olho por olho, dente por dente. O Discovery Channel dá-lhes a honra duvidosa de serem os mais duros dos duros. O american dream não é um admirável mundo de Oz onde todos podem entrar.

Como a vida é um blind date, um tabuleiro de acontecimentos, de linhas que se podem cruzar, de agulhas a fazer inclinar as histórias para um lado ou para outro, cruzei-me, fora das ruas, com os gangbangers de Oakland e os arqui-rivais de São Francisco. Eu explico. Há três experiências imperativas para se conhecer a América que não vem nos guias turísticos: um barbecue, um mov-in e um jogo de futebol americano. Das três só me faltava a última.

Mal estaciono o Dodge no parking do estádio há uma riqueza étnica que entra pelos olhos, pelo nariz e pelos ouvidos a dentro. Faltam quarenta minutos. Grelham-se os últimos steaks, joga-se beer pong. O tailgating é tão importante como o jogo.

Desço a ladeira até ao Candlestick para assistir ao duelo da East Bay, os 49ers de São Francisco contra os Oakland Raiders. A segurança vasculha os sacos e procura armas. Abriram-se as portas para um mundo mais do que imperfeito. Cenas de um filme de Scorsese. Não devia ficar surpreendida, sou uma consumidora industrial de Hollywood. Nunca vi tantos homens tão altos, tão largos, tão gordos. Nem tantas tatuagens, colares de cadeias grossas e maus cortes de cabelo.

Protegidas pela inocência, as miúdas estão fascinadas com os quiosques de hot dogs, com o algodão doce quadricolor – azul, rosa, amarelo e vermelho – com o merchandising das equipas e as cheerleaders. Sentámo-nos. À nossa frente um gigante de braços tatuados, vestido de negro – a cor dos Raiders – e um grupo de latinos vestidos com as camisolas vermelhas dos 49ers. Usam a cada dez segundos a palavra fucking. Explicam-me o jogo. Os manuais de etiqueta são omissos sobre o modo correcto de conversar com gangbangers.

Ao longe a polícia de intervenção corre para as bancadas – gesto que repetiria vezes sem conta – alguns adeptos são detidos. No relvado campo a partida continua e os 49ers ganham. O intervalo é preenchido por mariachis, danças mexicanas e acrobacias de um cowboy com laço.

Mostram-me num smartphone imagens de uma criança bonita. “É da idade da sua filha”. Saímos do jogo antes de terminar. Um “conselho amigo”.

Leio no jornal do dia seguinte: “dois adeptos dos 49ers baleados mortalmente após o jogo”.

Pode ser um lugar comum, mas a realidade ultrapassa em intensidade a ficção.


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