American way of life

Adoro o sublet. Alugar uma casa privada, na ausência dos donos, com toda a intimidade dentro. Os ruídos, os cheiros, o gosto, a cumplicidade. É a forma mais interessante de fazer férias, pelo prazer de sermos surpreendidos todos os anos. O sublet permite aceder à vida americana. Sem filtros.

Sento-me a observar. Sobre a mesa de madeira rústica onde escrevo está pousado um convite da California Academy of Sciences, empilham-se cartas por abrir e vários livros, Molecular Methods in Ecology, Molecular Markers, o delicioso, 8 Simple Rules for Dating My Teenage Daughter – é reconfortante saber que os Professores da Universidade de Berkeley têm as mesmas preocupações que o comum dos mortais – num canto, what else, um Mac. Entreabre-se a porta. Depois de fazer uma inspecção pelo quarto, aninha-se aos meus pés, sedutora e brincalhona, a Copper, a cadela dos donos da casa. Give me five, Copper! Ela estende a pata. São estes os dias felizes.

Há uma tal inflação de livros na minha nova morada, na Derby Street, que me sinto submetida pelo comodismo dos privilegiados. Estendo a mão à prateleira mais próxima e retiro apenas dois. Um que nunca li, Tales of the City,de Armistead Maupin, e outro, East of Eden, de John Steinbeck, que quero reler.

Desço as escadas. Os degraus de madeira rangem. Entro na cozinha e sinto-me numa série televisiva. Afixado no frigorífico, entre cartões postais e o programa da Orquestra de Berkeley, está o “Plano de emergência em caso de terramoto”. Se existe uma ordem na vida, essa ordem, não abdica de ser desordenada.

O fogão american style tenta. Abro as portas dos armários e um batalhão de formas, frigideiras, panelas de todos os tamanhos perfila-se. Parece dizer at your service! O desconhecimento das coisas boas da vida – panquecas com melaço, ovos com bacon, doce de abóbora quente, brownies, cinammon swirl – pode ser invejável. Suspiro, penso na máxima de Berkeley, “you are what you eat”. Infelizmente.

Ali ao lado vibram as paredes da sala com entusiásticos acordes que fariam o Beethoven ficar ainda mais surdo. Magnífico, o velho piano faz as delícias da Matilde. Nunca a lição diária de música foi tão consensual.

No alpendre de madeira, coberto por hera, cadeiras convidam a estar lá umas horas, a contemplar as rosas inglesas, de amarelo tão intenso que faz parecer pálido o rosa da buganvília. Escondido num canto está um dragão, que como os dragões dos contos de meninos guarda um tesouro: a chave da casa.

PS- Além do jardim, dos livros,  do piano e da proximidade do Summer Camp das miúdas, à distância de uma caminhada breve  fica a ICI, a  melhor gelataria de Berkeley. Má sorte ser o sublet uma opção temporária.

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5 thoughts on “American way of life

  1. Acho admirável a capacidade de uma família entregar temporariamente a sua casa tal qual nas mãos de outra desconhecida.
    E faz-me lembrar um conto de Daphne duMaurier.

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  2. Gi, nos Estados Unidos o sublet é muito comum. Claro que tem os seus riscos, mas há na maioria dos americanos uma generosidade, uma autenticidade (diria quase ingenuidade)inata que facilita esta “entrega temporária” das suas vidas nas mãos de estranhos.

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