Os chatos dos jornais alemães*

Diz-se que não há grandes diferenças entre os jornais alemães e o Paraíso. A mesma perfeição, a mesma ordem e um bocejo infinito. Há quem cultive um furioso desdém pelo seu formato. Garantem ser impossível folheá-los sem se ter feito um curso de origami para principiantes. E no mínimo um curso de literatura alemã.

Confesso que muitas reticências em compreender a máxima small is beautiful aplicada ao mundo editorial. Será que alguém no seu perfeito juízo trocaria um Audi A8 por um Polo só porque o segundo é mais fácil de estacionar? Adiante.

Evidentemente que broadsheets respeitáveis como o Die Zeit, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, o Die Welt ou o Süddeutsche Zeitung não são pensados para leitores apressados, daqueles com uma irreparável vocação para, entre uma chávena de café e um croissant, procurarem, não uma história nem a percepção do quotidiano, mas o seu resumo. E light sff.

Ler os broadsheets germânicos, pense-se por exemplo o Die Zeit, exige o mesmo nível de planeamento, de cumplicidade de um crime perfeito e uma disciplina prussiana. Ora, livrar-se da opressão do tempo e do momento, querer espreitar os desvãos das notícias, não é para quem quer, é para quem pode. Estão a imaginar um jornal com uma centena de páginas onde se resiste à ditadura do carácter e da imagem, onde cada coluna – every inch – é ocupada por jornalismo puro e duro, por reportagem, análise e notícias culturais?

O que mais me agrada  neste tipo de jornais é que trazem consigo a magnânima ilusão que nenhuma controvérsia fica por argumentar, que nenhuma exposição ou concerto ficam por visitar, que nenhum escritor, mesmo não seja jogador de futebol, apresentador de televisão ou comediante, deixa de ser lido. Abrem-nos as portas da amizade com pessoas que desconhecemos só que porque gostamos do que escrevem. Alimentam a ilusão do triunfo do papel sobre o digital. Entranham-se. Tornam-se num vício saudável. Mas é vício é vício,  é desregramento – horas que se perdem, ou se ganham dependendo da perspectiva – , cedência ao impulso. E ainda dizem que os jornais alemães são chatos?

 * Na Visão de 4.08.11

PS- Eu sei que é batota, mas a fazer malas é difícil pensar no Domadora.

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2 thoughts on “Os chatos dos jornais alemães*

  1. O texto é excelente e fico com pena de não haver jornais alemães em português. Mas a questão que verdadeiramente me assalta é: mas quanto tempo é que demoras a fazer as malas?

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