Multiculturalismo(s)

Se a intolerância “é o novo Muro de Berlim” – confesso que a metáfora me incomoda – a incapacidade de aceitar que o multiculturalismo sem deveres é uma utopia perigosa é a “nova muralha da China”.

Numa democracia importa reconhecer que “o Estado social não é um self-service sem quaisquer deveres”, como salientou o presidente germânico Christian Wulff.

Os imigrantes (incluindo os muçulmanos) na sua grande maioria estão bem integrados na Alemanha, participam na vida social, económica e política como o demonstram as estatísticas.

Não podemos porém enterrar a cabeça irresponsavelmente na areia e fingir que não se vê uma minoria que vivendo aqui usa e abusa do Estado social alemão, que desrespeita os seus princípios democráticos e os valores do Ocidente. Leia-se aqui os hediondos crimes de honra e os casamentos forçados. Os ataques de 11 de Setembro – planeados em Hamburgo – e série sucessiva de atentados que foram sendo desmantelados pela polícia alemã nesta última década contribuíram para aumentar o desconforto do convívio. Sintomaticamente deste mal-estar resultam “teses” com as de Thilo Sarrazin, tratado como um “leproso” em praça pública por muitos, jornalistas e políticos  ambos num pedestal, que nem se deram ao trabalho de abrir o livro. A política esvaziou-se, deixou de ser palco de confronto de ideias e argumentos – por mais nefandos que sejam – e passou a ser arena de eufemismos. Daí o incómodo causado por declarações como a da chanceler Angela Merkel onde se aponta o fracasso redondo do multiculturalismo. Certa esquerda  europeia – a mesma que apoiava o terrorismo da RAF  ou defendia a livre sexualidade da criança – tem dificuldade em olhar-se ao espelho e ver que o mundo de 68 se estilhaçou. Embateu contra o muro da realidade.

Defender as minorias é um dever indiscutível. Exigir que elas nos respeitem também.

 PS- ISto tudo veio a propósito de um título infeliz no Público de domingo: “Podemos culpar Sarkozy, Merkel e Cameron pelo clima que provocou atentados de Oslo?”

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6 thoughts on “Multiculturalismo(s)

  1. Há muitas pessoas que usam e abusam do Estado social e que não são imigrantes. Há também algumas pessoas que desrespeitam o Estado democrático e os valores do Ocidente e que também não são imigrantes – veja-se o caso do sr Breivik na Noruega, por exemplo, ou os casos de alguns violadores das próprias filhas que têm vindo a lume, por exemplo aquele respeitável senhor na Áustria.
    Identificar abusos do Estado social e desrespeitos aos valores culturais com imigrantes é, em si mesmo, uma forma de xenofobia.

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    1. Naturalmente que existe quem abuse do Estado social sem ser imigrante, o que merece a mesma veemente condenação. E claro que há pessoas desprezáveis, fanáticos, pedófilos entre os europeus e os ocidentais. A crítica a estes párias é unânime. Mas também há muitos que valendo-se do seu estatuto de “minoria” desrespeitam sistematicamente os nossos valores – falo de crimes de honra, de poligamia, de violência sobre as mulheres, de mutilação genital feminina – e gozam de um estatuto de “intocáveis”. Quem critica, quem essas situações de abuso na nossa Europa é com demasiada facilidade acusado de xenófobo. Dou-lhe o exemplo da mutilação genital feminina ( o que é um tema sobre o qual trabalho há anos) : quando ela é praticada num qualquer país africano insurgem-se as vozes- “aqueles selvagens”- , quando é praticada na Alemanha ou em Portugal, “fecham-se” os olhos por ser uma “prática cultural”. Confesso que não tenho a menor paciência para este dualismo de atitudes.

      Diferença sim, liberdade religiosa sim, liberdade de expressão sim, mas também respeito pelos direitos, liberdades e garantias ocidentais.

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      1. “há muitos que […] desrespeitam sistematicamente os nossos valores”

        Como é que uma pessoa desrespeita “sistematicamente” os valores? A Helena deve estar a pensar em GRUPOS de pessoas que desrespeitam sistematicamente valores.

        Suponhamos uma mãe que pratica a excisão à sua filha. Essa excisão é uma violação dos nossos valores, mas não é uma violação SISTEMÁTICA. É um caso isolado. A mãe da casa ao lado, embora eventualmente provinda do mesmo grupo étnico, pode não praticar a excisão à sua filha.

        E penso que não há ninguém que desrespeite os nossos valores “valendo-se do seu estatuto de minoria”. As pessoas desrespeitam, e prontos. Não justificam o seu ato nem o alardeiam. Não pedem que o seu ato seja desculpado por serem uma minoria.

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  2. O problema é velho: devemos tolerar os intolerantes?
    A resposta é mais fácil do que parece. Se se limitarem a falar sim. Se passarem do discurso à acção não. Ora, quando um muçulmano que vive na Europa obriga a filha a fazer a excisão está a agir e não apenas a falar. Isso não deve ser tolerado e ao muçulmano deve ser aplicado a mesma lei que se aplicaria a um europeu que fizesse isso.
    Mas convém fazer algumas distinções. Tolerar significa não interferir em comportamentos que consideramos errados, não significa aprovar esses comportamentos. Por exemplo: podemos achar errado que as mulheres muçulmanas que vivem na Europa usem o véu integral mas tolerar isso e não tentar impedir (pois percebemos que a interferência causaria maiores males que o próprio uso do véu). Mas temos de distinguir o que é tolerável do que é intolerável – do que é inaceitavelmente errado (quando é claro que o comportamento em causa é mais prejudicial que a sua proibição).
    Há comportamentos, como a excisão, que é claramente intolerável. Mas há outros mais discutívies, como é o caso da poligamia (ou melhor, poliginia). E aí chegados a facilidade inicial desaparece. Seja como for, não se enfrenta essa dificuldade com a atitude relativista e acrítica de tudo aceitar implicada nalgumas versões do multiculturalismo.

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  3. Entre os temas carregados de equívocos consta o «multiculturalismo». Roger Scruton, num livro recente, relembra-nos que a Europa nunca foi mono-cultural. Sabemos que, desde que se fez Europa, é talvez o continente menos mono-cultural. Nem é sequer da geração dos nossos pais que quem andou na escola estuda o Egipto, os Maias, etc., etc. Às vezes é até de muito difícil digestão a crítica ao «eurocentrismo», como se fosse possível alguém ver o mundo com olhos que não são seus. Deparei-me há poucos meses com um caso-tipo interessante em Moçambique. Está-se a conversar e o tema calha, por exemplo, ser a China. O africano presente (muito ou pouco viajado ou letrado, não interessa) que sabe tanto ou tão pouco desse país como o interlocutor «ocidental», recorre a uma das frases típicas: «Vocês europeus não sabem nada da China!». Portanto, ele, africano, como não é´«eurocêntrico» (ouviu isso em qualquer lado) sabe aprioristicamente mais de qualquer sítio do mundo do que qualquer «europeu». Diga-se que os ocidentais tudo fizeram para merecer isto. Apesar de não serem «mono-culturais», por sua própria iniciativa avançaram para o «multiculturalismo» arrastando outro equívoco. Talvez o problema do «multiculturalismo» é precisamente o de os outros não acompanharem a Europa. Cito exemplos. Não há circuitos universitários ocidentais que não contemplem, entre outros, estudos africanos, estudos asiáticos, estudos das minorias, estudos sobre imigração, etc., etc. Isso é absolutamente louvável. Que não pairem dúvidas a esse respeito. Agora, experimente-se abrir um curso de estudos europeus em Angola ou na Nigéria; ou um curso de pensamento ocidental (por contraponto ao oriental) na China; ou avançar com uma pesquisa consistente sobre discriminação de minorias raciais em sociedades maioritariamente negras (para não serem sempre os EUA e a Europa escrutinados nessa matéria). Depois logo se verá quem não é «multicultural»…

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