Os alemães vistos pelo Carlos Martins

Se os portugueses se consideram um povo de navegadores, os alemães gostam de se classificar a si próprios como um povo de „poetas e filósofos“ (Dichter und Denker). Alguns maldosos (ou realistas?) modificaram porém o epíteto dos germanos e preferem dizer que se trata dum povo de „juízes e carrascos“ (Richter und Henker).

Leio sempre com muito interesse os anúncios de óbito nos jornais alemães. Muitos não se limitam a dar a notícia da morte do parente querido, mas acompanham-na com uma citação – frequentemente da Bíblia, mas também de poetas e prosadores conhecidos, de letras de canções da moda ou de textos da sua própria lavra. Não sei porquê, um dos autores mais citados é o francês St. Exupéry, com o seu „Princepezinho“. Com isto dá-se à morte um quadro cultural.

Para além disso há também toda a espécie de textos – dos estereotipados, género „Quem continua a viver na memória dos amigos, não morre“ – a outros pungentes como este: „Para o mundo, tu não passavas duma pessoa qualquer; mas para mim eras o mundo“. Há anos houve um escândalo em Colónia, porque um homem resolveu aproveitar esta ocasião penosa e pública para fazer um ajuste de contas derradeiro com o seu próprio pai, escrevendo lacónico: „Não deixaste saudades“. Finalmente há um modelo, muito frequente e ridículo que diz mais ou menos assim: „Súbita e inesperadamente morreu hoje com 97 anos…“

A par destas notícias de óbito, há diariamente mensagens pessoais de todo o género – gente que faz questão de se declarar ou reconciliar na praça pública, num exibicionismo pornográfico de intimidades, tratando-se de preferência (vá lá um um tipo saber porquê!) por nomes de animais: meu coelhinho, meu ursinho, minha pombinha, minha baratinha, meu bicharoco – enfim, um kitch insuportável! Ou então são peças por vezes longuíssimas (e caríssimas!) da melhor filosofia de cozinha, com considerações sobre todos os males deste mundo e do outro; e apelos melodramáticos a toda a humanidade, em versos de pé quebrado. Pelos vistos em cada alemão há um poeta frustrado.

E os diários íntimos? Uma mania endémica! Muitas personalidades da vida pública alemã escreveram ou escrevem diários. Alguns tornaram-se famosos como os de Goebbels que, antes de se deitar, nunca deixava de anotar cuidadosamente tudo o que fizera nesse dia – uma enumeração infindável e fastidiosa de acontecimentos, na maior parte das vezes banais, de reflexões pseudo-filosóficas, escritas tantas vezes enquanto lá fóra caíam as bombas dos aliados sobre Berlim. São milhares e milhares de páginas de banalidades! Também ele como José Saramago estava provavelmente convencido de que as gerações vindouras estariam interessadíssimas em ler tais textos dum narcisismo ridículo e insuportável. Outro caso é o do escritor Thomas Mann que depois de ter escrito alguns dos melhores romances da literatura mundial, dedicou os últimos anos da sua vida a registar, com uma minúcia de amanuense, tudo o que fazia ou não fazia, borrando a pintura.

Mas tirando estes nomes famosos, há a multidão dos escritórires de diários anónimos, cujas obras felizmente nunca verão a luz do dia. Aquilo que é talvez normal na adolescência, prolonga-se no caso de muitos alemães pela vida fóra – a fúria escriturária de passar tudo a papel. Falta de interlocutor? É o mais provável. Será por isso, por serem assim tão metidos para dentro, complicados, tortuosos e secretos que os alemães gostam tanto de Fernando Pessoa?

Carlos Martins

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