“Plastiqueiros”

Guta no Mercado Central de Maputo

Não existe para uma cidade melhor confessionário do que um mercado. É um mundo de beleza áspera e cores vibrantes. Um mundo feito de poesia. De “mamãs” redondas que guardam meticais na dobra da capulana, de mulheres garças, de passarinheiros, de peixeiras, de ilusionistas que trocam extensões de cabelo por fugaz  beleza.

O Mercado Central de Maputo, na Avenida  25 de Setembro, é um buraco por onde quem queira pode espreitar para o outro lado da fechadura de uma cidade que se luandiza. É geografia da intimidade onde aporta o barco da sobrevivência. Neste edifício centenário, degradado, onde envelhecem as horas,  conheci a Guta. A sua voz era uma brisa, com a tristeza tão triste dos que não sabem que choram. A Guta é “plastiqueira”. Uma entre os muitos que cirandam por aqui. O seu “trabalho” é carregar os sacos de plástico da classe média. Ou levar sacos de batatas até ao carro da compradora. Recebe 10, 20 meticais das clientes, às vezes há quem “esqueça” de pagar. Guta tem 13 anos, é órfã de mãe e de pai, suspeito, sem ter confirmado, que ambos terão morrido de Sida. De entre os “plastiqueiros” Guta é uma “privilegiada”, mora perto, no Polana Caniço, tem uma avó, vendedeira no mercado, que cuida dela , e vai à escola. O que ganha é para “comprar papel, comprar caneta”. O silêncio intromete-se entre ela e o meu bloco-notas. Lanço-lhe derradeira pergunta: quando cresceres o que queres ser? “Professora”, responde esta mulher menina para quem os livros são estrangeiros e o mercado é o “ensinador”. Um dedo nos lábios pede-me cumplicidade. Guta leva-me aos outros “plastiqueiros”. “Podem falar,  ela é das nossas”. Desamarram a fala. A linha condutora dessas vidas é simples: pobreza, muitas vezes violência, abuso sexual. Vidas onde se enrosca a solidão. O Mercado, onde dormem e de cujos restos se alimentam, é mãe, é pai, e demasiadas vezes padrasto. Perante tão pouca infância, as palavras no meu bloco-notas tiram-me o sono.

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4 thoughts on ““Plastiqueiros”

  1. Helena, quando leio estas coisas penso como deve ser difícil ser jornalista, mostrar sem intervir, não poder intervir (não só eticamente, mas fisica e materialmente não poder) em tudo o que se mostra… Força para si, e bem-haja.

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  2. Obrigada pelas suas palavras Gi. Há momentos em que é duro, exasperante ser-se jornalista, particularmente quando se trabalha no mundo dos “transparentes”. Mas no meio disto tudo também tenho encontrado momentos em que o melhor do ser humano sobressai, em que generosidade prevalece. Entre os “plastiqueiros” alguns mais velhos protegem os mais novos, “ensinam-lhes” a arte da sobrevivência, às vezes até lhes dispensam um raro gesto de ternura.

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