Meninos sem colo

A “praia” da 25 de Setembro. HFG, Maputo 28.06.11
 

Estendido sob a areia dormia embalado pelo sol morno do Inverno moçambicano. Deve ter uns oito, nove anos. Na praia daquele menino não pousam flamingos, aves anunciadoras da esperança. A praia dele é o separador da 25 de Setembro, uma das avenidas mais movimentadas de Maputo.

Os passantes sucediam-se impávidos ao preguiçar sem destino daquele menino descalço.Os condutores nem lhe concediam um olhar. Perguntei quem era aquele menino sem colo. “É um feito à toa”. Filho de uma prostituta, virabazucas, das que requebram ali por perto, concebido num momento de breve prazer comprado. Abandonado pela mãe e de pai desconhecido, vai sobrevivendo como consegue. A sua estória de embalar é a fome. O seu corpo é tapete de todos abusos. Queria consolar-lhe a tristeza, passar-lhe a mão pelo rosto, dar-lhe colo. Limitei-me a dar-lhe comida , a pôr tudo o que se revolvia em turbilhão cá dentro num sorriso. Devolveu-mo. Um risco branco de dentes iluminou-se. Quando entrei no táxi, bateu ao de leve na janela e acenou-me. Depois regressou à sua praia.  

LUSA-  Moçambique tem os mais altos níveis de desnutrição crónica infantil no mundo e deve redobrar os esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio na área da mortalidade infantil, indica um relatório da UNICEF divulgado esta segunda-feira em Maputo.

O relatório de 2010 sobre “Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique” refere que 44 por cento das crianças moçambicanas sofrem de desnutrição crónica e a média mais alta regista-se na província de Cabo Delgado, com 59 por cento dos menores a enfrentar esse problema.

A situação da criança em Moçambique é também grave ao nível da mortalidade infantil, pois 141 crianças entre mil morrem antes de completar cinco anos. Dessas mortes, 33 por cento são provocadas por malária, aponta a UNICEF.

“Houve grandes progressos depois da guerra civil, mas prevalecem dois grandes problemas essenciais: o ritmo da redução da mortalidade infantil não está a ser suficientemente rápido e o segundo tem a ver com as disparidades regionais neste indicador”, disse o representante adjunto da UNICEF em Moçambique, Roberto de Bernardi, comentando o estudo.

Em todo o país, indica o relatório, 48 por cento das crianças passam por pelo menos duas ou mais privações severas, 11 por cento das raparigas com idades entre 11 e 15 anos estão infetadas pelo HIV/SIDA e 70 por cento dos alunos conhecem casos de abuso sexual nas suas escolas.

A UNICEF constatou na sua pesquisa que 52 por cento de raparigas com menos de 18 anos estão casadas e 22 por cento de crianças entre 5 e 14 anos trabalham.

Ao comentar os dados do relatório, a coordenadora-residente da agência das Nações Unidas em Moçambique, Lola Castro, afirmou que a pesquisa demonstra “a necessidade e urgência de o país investir nas crianças, porque serão os adultos” de amanhã.

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