Notas soltas de Maputo

Sempre houve pessoas a argumentar que a verdade é muitas vezes inorportuna, contraproducente, uma extravagância, um luxo. Chama-se a isto pensar de modo político e é um fenómeno corrente. Na minha Europa, na minha África.

Quando trabalho com jornalistas africanos, tal como agora em Maputo, uma das primeiras questões que lhes coloco é a da “verdade política” versus “objectividade jornalística”. Como vivem eles com a pressão política? Como a “contornam”? Como se defendem? As respostas são um compêndio de moçambicanidade.

 No falejar corrente de Moçambique, em particular nas Províncias, diz-se que “ Fulano foi à Nação” quando se quer dizer que alguém foi a Maputo. Nação, Estado e Governo fundem-se. A FRELIMO, que soube a proveitar de forma inteligente as narrativas de sofrimento e libertou Moçambique do jugo colonial, trocou um jugo por outro, substituiu os sipaios por patrulheiros ideológicos.

Apesar de toda a ingratidão da profissão aqui em Moçambique, tenho tido a sorte de encontrar em sala jornalistas empenhados, que não se acobardam, que não fecham os olhos , que acreditam que o papel principal da rádio em África continua a ser o de dar voz aos que não a tem. A minha admiração vai para todos eles. Com as suas diferentes trajectórias, eles são resistentes contra a melodia do recorrente acomodamento. Querem um exemplo? O Odécio, um jornalista de Quelimane, partiu na sexta-feira à tarde e chegou na madrugada de hoje. Apresentou-se pontualmente na sala e ainda pediu desculpa, com delicadeza,  se em algum momento estivesse mais desatento. É dificil pedir-se mais dedicação.

“Refresco”

 Não é a primeira vez que tenho problemas com a polícia moçambicana e sempre no mesmo local. A Avenida Karl Marx. Num jogo de poder desigual, o par ( actuam sempre aos pares) de miúdos polícias armados de metralhadora, mandou-nos parar. A mim e ao meu colega britânico. Pediram os passaportes e os vistos. “Como é que entrou no país?”. Pacientemente expliquei. E num momento lucidez “arranquei” o passaporte da mãos do polícia. Já o meu colega trazia apenas cópias do passaporte. “Isto não é válido, não tem carimbo de autenticação” . Propusemos que nos acompanhassem ao Hotel para mostrar o documento original. “ É chato irmos para o Hotel assim…com as metralhadoras”. Com o meu colega visivelmente a perder a paciência, decidi perguntar-lhes qual era a proposta deles para resolver a situação. A resposta foi a que eu esperava. “ Arranje-nos uns meticais para o café”. Acabamos por ceder à extorsão, o que não é corajoso, mas foi sensato. Fiquei com um gosto amargo na boca depois do “refresco”.

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2 thoughts on “Notas soltas de Maputo

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