Jornalismo e direitos humanos

Segunda e terça-feira jornalistas, investigadores, bloggers de todo o mundo encontram-se em Bona, para debater o papel da comunicação social na defesa dos direitos do Homem. Entre eles estará por exemplo a tunisina Lina Ben Mehnni, nome de guerra, “TunisianGirl”. Os temas vão das mulheres como vítimas da guerra, passando pelo Sudão ou ao acesso à água como um direito humano. Tentarei na medida do possível trazer aqui impressões, reflexões e partilhas.

Por falar em partilha, durante a minha investigação para este  “desenterrei” uma das mais belas reportagens de guerra que li. É de 1999 e o autor é o Pedro Rosa Mendes.  

Lara foi à ópera dos sem-vintém

O porteiro do Teatro Nacional de Belgrado não entendeu nada quando uma mulher muito magra, vestida como um espantalho, apareceu diante dele na véspera de Ano Novo de 1993, querendo entrar no concerto de gala. “Oiça: eu não tenho dinheiro para o bilhete. Sou refugiada de Sarajevo. Tenho uma necessidade cultural vital de ver esta ópera. Deixe-me entrar”.”Chame aquele homem ali”, pediu Lara, a refugiada, em desespero, com sapatilhas de atacadores diferentes e um tecido em balão pendurado à cintura. O homem, que estava no átrio a receber os convidados, era o director do Teatro e Lara insistiu com ele. “Oiça: eu não sou o que o senhor está a ver. Eu sou essa ópera que você tem esta noite aí dentro”.O homem deixou-a entrar. Fez mais: sentou Lara a seu lado no camarote presidencial, onde a televisão a filmou. “Felizmente, apanharam-me apenas da cintura para cima, porque eu levava uma blusa de seda muito bonita, a única que tinha”. Fora do plano, ficou o tecido que não deixava perceber se ela trazia uma saia de roda ou umas calças muito largas. Na televisão também não apareceram as sapatilhas dadas pela Cruz Vermelha, com um atacador de cada cor – um deles feito a partir do elástico de um pijama.Nessa noite de concerto, Lara e uma amiga ouviram 23 árias de ópera, incluindo a sua preferida, da “Cavalaria Rusticana” de Rossini. Quase seis anos depois, continua em Belgrado, refugiada, instalada num centro de acolhimento de idosos. De uma guerra para a outra, perdeu o medo das bombas, conservou a esperança e manteve as suas necessidades vitais: “Não entendo, nem quero habituar-me, à situação de não poder ouvir música e de não ir à ópera e ao teatro”. Tudo o resto está para longe ou para trás.Lara não tem esse nome, escolheu-o ao contar a sua história, e esse em vez de outro porque se identifica com a Lara do “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak. Lara foi professora universitária em Sarajevo. Tem duas licenciaturas, Sociologia e Direito.”Agora, quando esta guerra começou, não tive medo. Já conheço tudo. Tudo o que podia acontecer de mau já vi acontecer e já me aconteceu”, explica Lara, que viveu os dois piores anos da destruição de Sarajevo pelo ódio. “Quando isto começou, fui às manifestações em cima das pontes e aos concertos na Praça da República. Num deles, vi um casal com um filho aos ombros com um pano a dizer: ‘Avião, atira-me bombons?’ Foi quando chorei”.Os dois filhos de Lara fugiram para o Canadá, em 1992, e continuam lá para escapar à mobilização. “O mais velho tinha e tem amigos muçulmanos e croatas. Decidiu que não ia entrar numa guerra porque lhe faltava inimigo”. Desde 1992 até hoje, Lara viu apenas os filhos uma vez, em 1996, quando eles puderam pagar-lhe uma viagem a Vancouver.O marido também continua vivo, de certa maneira. Professor universitário como Lara, foi parar a um campo de reformados (era de refugiados) em Tuzla. “É um casamento selvagem”. Falam-se de vez em quando pelo telefone e esperam o dia, um dia, em que voltem a ter dinheiro para se juntar em Sarajevo.É lá que ficou a pátria de Lara, apesar de ela ter nascido em Kragujevac, no centro da Sérvia. “Somos jugo-nostálgicos, como todas as pessoas honestas” – essa espécie de órfãos, de Zagreb a Belgrado, que o realizador sérvio bósnio Emir Kusturica definiu como “jugoslavos étnicos”.Lara habitava um apartamento da zona chique. Tinha carro e, mais importante, 1500 livros nas estantes. “Não conseguimos queimá-los quando deixou de haver combustível para o aquecimento e para cozinhar”, a partir de 1992. “Fomos queimando os tacos do chão e toda a mobília”. Pelos livros, foi o marido espancado quando um dia os soldados entraram no apartamento e insistiram que as notas de leitura – Lara aponta no início o número das páginas com as passagens mais relevantes – eram mensagens cifradas.De 1992 ao fim de 1993, Lara viveu dois anos de desmoronamento. A falta de água era terrível. Era preciso ir buscá-la a sete quilómetros, sob a mira dos snipers. Comida também quase não havia, “cozinhava-se raízes com tempero” e recebia-se “nove feijões por pessoa”.Lara ainda guarda uma saqueta de plástico castanho com inscrições a negro: “Refeição pronta-a-comer/ menu número 12/ batatas com fiambre/ embalado em 29.5.74”. “Havia algumas rações de combate de 1954. Cheirava mal mas comia-se na mesma”.Estar sem lenha nem electricidade com 17 graus negativos também dói até aos ossos (Lara aprendeu uns truques: “O papel molhado em água, depois de seco, arde durante mais tempo”). Mas o que não cicatrizou foi o horror do ódio étnico. Ela julgava que tudo ia ficar na mesma em Sarajevo até ao dia em que, numa fila para a água, um colega da universidade, nascido na mesma vila da Bósnia que o marido, a reconheceu e gritou: “Não se consegue ter água por causa dos porcos sérvios”. Lara saiu da fila.”Com o tempo, estes casos acumularam-se e as pessoas passaram a viver em círculos cada vez mais fechados e a agrupar-se em zonas diferentes”. O seu círculo de amigos mais chegado, porém, manteve-se de pé, até hoje, multiétnico. “Como a Jugoslávia teria sobrevivido se não fossem os nacionalistas”.O marido de Lara ficou em Sarajevo quando ela partiu para Belgrado, mas, depois de estar fora um mês para visitar a mulher, encontrou o seu apartamento fechado. “Ainda continuamos à espera que as autoridades nos devolvam o apartamento, como manda o acordo de Dayton”. É o único sítio que lhes permitirá voltar a refazer a vida, juntos. Não há dinheiro para outro.”O direito de um casal é escolher onde quer viver”. Lara e o marido viveram 35 anos em Sarajevo e continuam à espera que a paz regresse aos Balcãs. “Com esta guerra, as esperanças ficaram mais frágeis”. Há quem comente que, sob os bombardeamentos da NATO, Belgrado soube pela primeira vez o que era sofrer a guerra que infligiu aos outros. Lara rejeita fazer parte dessa história. “Isso é a interpretação de homens de maldade”.O que é verdade é que “em Sarajevo o perigo vinha de todos os lados, não se sabia quem disparava sobre quem. Tudo era mais drástico e prolongado. Em Belgrado, agora, as bombas caem mas não as vemos”. Lara lembra-se de um ditado nascido da guerra: “Deus queira que não passemos por tudo o que o homem pode aguentar”. Ela está viva e feliz no seu vestido azul-ofuscante. Escreveu um diário da guerra em Sarajevo e coseu-o no fundo de uma mochila. “Todos os dias apontava a hora exacta a que nascia o Sol”. Nunca mais o abriu

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