Por favor chamem o CSI e deixem os alemães em paz

Ligar o „descomplicómetro“ é tão inalcançável para um alemão como a física quântica para o comum dos mortais. Ser complicado está-lhes no código genético, nada a fazer. Para o (nosso) bem –  pense-se na música, na filosofia e na tecnologia alemã – e para o mal (deles e nosso). A actual gestão, desastrosa, da crise EHEC é um case study. Da complicometria e do desfasamento que existe entre o ritmo da ciência e o de uma sociedade hipermediatizada.

Fiquemo-nos pela complexidade. Se alguma coisa não corre na Alemanha de acordo com o plano “A”, a reacção pavloviana é prescrever uma nova lei e um novo organismo público. Ordnung muss sein.

Como se sabe a Alemanha é uma República Federal, composta por 16 Länder com enormes competências políticas. O que implica que a maioria dos ministérios federais ou organismos públicos tenha dezasseis réplicas regionais (de que nenhum Land está disposto a abrir mão). Quando há uma crise de saúde pública como a actual (ou as passadas BSE, gripe suína e gripe das aves), há dois ministérios Federais envolvidos, o da Saúde e o da Protecção do Consumidor, dois institutos nacionais, o Robert Koch e o Instituto Federal de avaliação de risco, 16 “ministérios” da saúde regionais, 16 “ministérios” da protecção do consumidor regionais, uma miríade de institutos autárquicos, assim como hospitais e faculdades. Como se fosse pouco ainda há políticos de cores diferentes  – sempre disponíveis para dar um soundbyte – egos académicos e uma máquina trituradora chamada Bild. O corolário é pois simples: se não se tiver a lucidez mental e a disciplina prussiana de um Kant o caos está programado.

 O caos instalado vem corroendo a imagem da Alemanha e tem causado estranhas manifestações de Schadenfreude na Europa. Houve mesmo quem comparasse o incomparável dizendo que ao viajar para a Alemanha se corriam os mesmos riscos que em África (das duas uma, quem assim argumenta provavelmente não conhece nem África , nem a Alemanha, ou está em jejum de pensamento). Houve mesmo um estranho surto de “nacionalismo hortícola”, uma aliança luso-hispânica contra o apontar do dedo para os pepinos espanhóis (como se o desporto nacional não fosse bater na senhora Merkel e na Alemanha).

Meus amigos onde é que está tão propagada solidariedade? É que aqui já morreram 25 pessoas. Os alemães cometeram erros? Cometeram. Foram precipitados? Foram. Mas a par dos políticos há um número imenso de cientistas, de médicos, de pessoal de saúde a dar o seu melhor, a dar tudo para salvar os pacientes infectados, descobrir a origem da doença e procurar as melhores formas de terapia. Infelizmente estes heróis anónimos não chegam às páginas dos jornais estrangeiros. Eles, tal como as vítimas merecem respeito. Por isso se não confiam nos alemães, vão lá chamar o CSI, vão.

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2 thoughts on “Por favor chamem o CSI e deixem os alemães em paz

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