Guia de bolso dos preconceitos contra os alemães

Este texto é de chorar a rir. A culpa é da alemã mais portuguesa que conheço. Num momento em que o passatempo preferido dos portugueses parece ser o bashing contra a Alemanha  e se atiram insultos como quem tira guloseimas de dentro de um cartuxo partilho este guia de instruções para compreender os alemães.

Os alemães são todos ricos – falso. O país é rico, mas também na Alemanha existem a pobreza e a marginalização. O que funciona melhor do que noutros países é a distribuição da riqueza: ao contrário do que se passa em Portugal, por exemplo, o fosso que separa os ricos dos pobres não atinge as dimensões de país do Terceiro Mundo. Uma sociedade civil activa e uma população politicamente engajada souberam evitá-lo, pelo menos até agora.

Os alemães são muito trabalhadores – falso. Os alemães não trabalham mais ou menos do que os outros povos. Se há muitos que dão o seu melhor no emprego, outros tantos há que se encostam e se regem pela lei do menor esforço. O mito do «alemão que trabalha muito» está a desaparecer até na própria Alemanha.
Os alemães são xenófobos – falso. Os alemães têm um interesse invulgar pelas culturas e gentes de outros países. Se não se pode negar que existem alemães racistas, xenófobos e mesmo neo-nazis, isso não os distingue em nada do resto da Europa, Portugal inclusive. O número de incidentes xenófobos na Alemanha é mesmo bastante mais reduzido do que na França ou na Grã-Bretanha. Ao contrário de certos outros povos, os alemães estão muito conscientes do seu passado de perseguição e terror contra inocentes e indefesos. Um factor que, aliás, influencia de forma decisiva o seu comportamento em relação a estrangeiros.
Os alemães são frios – falso. Os alemães são reservados e reticentes num primeiro contacto com os estrangeiros, porque conhecem, ou julgam conhecer, a imagem negativa que têm no exterior e – conscientemente ou não – receiam a reacção à sua pessoa. Por outro lado, quando se faz um amigo verdadeiro na Alemanha, costuma ser para a vida e não apenas para a troca de postais no Natal.
Os alemães sabem sempre tudo melhor – correcto. Pelo menos eles pensam que sim. Sobretudo quando se sentem compelidos a explicar o mundo a um estrangeiro. Custa-lhes até acreditar que um português, ou turco, ou italiano possa conhecer melhor o país dele do que eles, que já lá fizeram uma semana de praia. Ainda não há estudos científicos sobre este fenómeno – por vezes cómico – do «sabichão alemão», que tanto pode ter origem genética como cultural. Mas contrariá-los abertamente é um erro para quem não quer fazer um inimigo para a eternidade, porque os alemães melindram-se com grande facilidade. Quem quiser repor os factos deve sempre fazê-lo com um diplomático «O amigo tem toda a razão, mas …».
Os alemães não têm sentido de humor – falso. Os alemães até têm um sentido de humor muito parecido ao dos portugueses, pelo menos a julgar pelo que passa por «programa humorístico» nas televisões dos dois países. Mas para além desses produtos de massa de gosto duvidoso, os alemães têm uma especialidade humorística única no seu género e verdadeiramente inteligente e divertida: o cabaré político. Evidentemente trata-se de um humor sofisticado só apreciável por quem conhece profundamente a língua e a realidade do país – tanto é assim que passa por cima da cabeça até de muito alemães. Essa barreira intransponível para muitos terá contribuído para a imagem falsa do alemão sem humor.
Os alemães são muito organizados – correcto. Pelo menos do ponto de vista do português médio, adverso a desperdiçar neurónios preciosos com o que possa ser amanhã. Que o diga quem, por força das circunstância profissionais, lida em simultâneo com alemães e portugueses, e se encontra muitas vezes exasperantemente entalado entre a alergia alemã à improvisação e o ódio luso a qualquer planejamento.
Na Alemanha faz sempre mau tempo – falso. Na Alemanha faz sempre péssimo tempo. Lá pelo Mundial ser no Verão não quer dizer que não chova semanas a fio. Em 2005, mais de um milhão de peregrinos de todo o mundo vieram a  Colónia para ver o Papa Bento XVI e passaram uma semana à chuva, ao vento e ao frio – em pleno Agosto! Quando faz calor, a elevada humidade ainda torna o clima mais insuportável, a não ser para os nativos da selva tropical. Os alemães, que gostam de racionalizar, costumam dizer que «não há mau tempo, só há roupa inadequada». Um sofisma revelador do desespero profundo pela sorte que lhes coube em termos de clima.
Os alemães são … – falso. «Os alemães» não existem, como não existem «os portugueses». Os alemães vêm em todos os tamanhos, cores e feitios, são seres humanos com virtudes e defeitos como em qualquer lado do mundo e devem ser encarados individualmente, e não como uma massa amorfa convenientemente etiquetada para quem tem preguiça de pensar.

Cristina Krippahl, in Portugal Post

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