A física e o presidente

Quando o sexto presidente norte-americano John Quincy Adams alertou os americanos para a inclinação de combater “monstros distantes”, não imaginaria a dimensão e a quantidade de monstros que iriam surgir no mundo pós cortina de ferro e pós 11 de Setembro. À luz da experiência das duas últimas décadas, a América reconheceu que, apesar de continuar a ser militarmente preponderante e o país mais poderoso do mundo, faz parte de um novo sistema de poder. E descobriu a sua vulnerabilidade, o que a leva a olhar para o outro lado do Atlântico e em concreto para a Alemanha.

Costuma dizer que quando um francês tem um problema ergue uma barricada, um inglês queixa-se ao seu deputado e um alemão analisa racionalmente causas, cenários de resolução e consequências. Sendo o alemão, no caso uma alemã, doutorada em Física e treinada a pensar de forma complexa, o intervalo que medeia a reflexão e acção pode parecer longo e irritante para os parceiros. E para a voracidade dos media.

Com a acutilância que lhe é tão própria a imprensa alemã escrevia que se o protocolo fosse uma escala para medir as relações bilaterais não haveria motivo de inquietação ao se olhar para o eixo Washington-Berlim.

Nos jardins da Casa Branca, perante mais de três mil convidados a chanceler Angela Merkel recebeu a Medalha da Liberdade, a mais elevada ordem civil norte-americana. O único dirigente alemão a merece-la fora o grande chanceler Helmut Kohl.

Os americanos comuns gostam Angie, uma encarnação do american dream, da história de sucesso. Nas palavras de Barak Obama a chanceler é “uma mulher com um percurso admirável que personifica a liberdade e é uma inspiração para as pessoas de todo o planeta”. Uma Wunder Woman na expressão da Newsweek. Maior contraste com a imagem actual de Merkel na Alemanha e na Europa é difícil!

 Além de admirarem a política que veio do Leste, os americanos apreciam também o segundo milagre económico que se vive na Alemanha e que contrasta com a situação desoladora interna. Pragmáticos, os americanos gostariam de ver a Alemanha assumir a sua posição de primus inter pares na Europa e não vê-la a comportar-se em terreiro internacional como uma grande Suíça. A passadeira vermelha estendida a Merkel e a pompa com foi recebida traz amarrada uma mensagem clara: ajam de acordo com o vosso peso político (a palavra Líbia diz-vos alguma coisa).

 Por mais bismarckiana que a política externa alemã seja neste momento – isto é, assente no modelo de procurar evitar o aparecimento de antagonistas, construir alianças sobrepostas e usar a influência daí resultante para moderar eventuais conflitos –Angela Merkel é em essência uma atlantista (foi ela quem reparou os cacos da relação bilateral após o consulado de Gerhard Schroeder). Se bem que um atlantista com preocupações, legítimas, internas.

Tal como em 1989 sopram agora “winds of change” no mundo árabe. Está em jogo a liberdade e mais que ninguém Angela Merkel sabe como ela é  preciosa. O insuspeito Tagesspiegel ( de esquerda) dava um conselho a Obama “confie nos alemães”( leia-se confie em Merkel).

 Na hora da verdade Berlim e Washington sempre souberam distinguir o essencial do acessório. O resto são brigas de família.

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