O canto da quizumba

Entre a ficção e a realidade, há inúmeros pontos de contacto e outras tantas diferenças. A propósito de Portugal lembrei-me de um conto moçambicano, do Alto Zambeze, que ouvi em tempos.E esta é a versão que recordo de memória. É claro que este conto termina muito bem, ou muito mal dependendo da perspectiva.

 “Nsai era a mais bela das raparigas da aldeia. Olhava com altivez os pretendentes, erguia o sobrolho e um a um recusou.

Numa tarde de tédio, ferida pela incerteza de quem já viu a todos e nenhum lhe servia, Nsai recebeu a quizumba (hiena). Vestida com um bom casaco, sapatos novos e óculos a quizumba iludiu Nsai. “É com ele que vou casar”. Cumpriram-se os rituais e Nsai partiu para casa dos sogros, levando o irmão mais novo como é da tradição. Quando chegaram perguntou à quizumba:”onde estão os meus sogros?”. “Espera e logo verás”, respondeu-lhe o marido. Atordoado com a quebra da tradição o irmão mais novo resolveu desvendar o mistério. Era noite profunda quando chegaram os parentes da quizumba. E começaram logo a discutir: “Nsai está bem gordinha, vamos devorá-la”. O marido opôs-se com força à pretensão e propôs prazo de semanas.

No dia seguinte Nsai acordou bem disposta e ficou radiante ao ver o resultado de uma caçada no quintal. “Vês como o meu marido é bom?“. Ao que o irmão lhe respondeu: “não te iludas os familiares do teu marido não passam de bichos selvagens que nos querem devorar”. Nsai ficou indignada “o que tu queres é acabar com o meu casamento”.

Passaram-se as três semanas. Na véspera do dia em que Nsai iria ser devorada o irmão atou-lhe um cordel ao dedo polegar. Quando as feras entraram, o irmão puxou o fio e Nsai acordou  e ficou petrificada ao ouvir: “ Já está gordinha. Amanhã vai ser uma grande festa!”

Tudo parecia estar perdido, não fosse o irmão. Durante essas duas semanas o pequeno costurou as peles dos animais e com elas construiu uma embarcação. Nela fugiram ambos, deixando as feras a lamentar o tempo que perderam na engorda dos dois irmãos”.

 Se Nsai-Portugal quisesse o país poderia transformar-se num local bem melhor. Deixando de sucumbir à tentação da aparência, da quizumba, recuperando a inteligência, a diligência e o brio. Cresceria e devolver-nos-ia o nosso país imaginado. Como diria o Eça “Vamos fazer disto um bijou!”

 

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