Merkel e a fábula dos portugueses preguiçosos

Talvez a pretensão mais extraordinária do jornalismo político seja a de tentar entender o que faz mover determinado líder. Por mim falo. Acompanho Angela Merkel há década e meia. Segui o seu percurso desde os tempos de Secretária Geral da CDU até se tornar presidente do partido e chanceler. Tentei capturar o momento histórico que a concebeu lendo todas as biografias sobre ela publicadas na Alemanha, privei com ela, li entrevistas e opiniões acerca dela e mesmo assim continuo a ter dificuldades em perscrutar o seu pensamento.

Surpreendo-me por isso quando vejo que em cada português há um especialista encartado em matéria “merkeliana”, assombro-me com os editorais exaltados, que se presumem de uma objectividade que não tem e se limitam a sobrevoar os assuntos à luz dos preconceitos de quem os escreve. É claro como água que a chanceler é uma espécie de “inimiga pública número um” para boa parte da opinião pública e publicada portuguesa. Uma espécie de idiota útil.

Isto tudo vem a propósito das reacções aos comentários “vexatórios” feitos por Angela Merkel, em Meschede, na profunda província germânica. Conte-se em duas penadas. Nada como a banda dos bombeiros locais e uma pitada de populismo e demagogia para animar a festa dos democratas-cristãos – esta fórmula é válida também para os outros partidos alemães – terão pensado os spin doctors de Berlim. Para cumprir os seus objectivos político partidários a chanceler recorreu a uma versão contemporânea da fábula da formiga alemã e das cigarras preguiçosas no sul da Europa. As cabecinhas bem-pensantes de Berlim não contaram porém com o facto de, surprise, surprise, em Atenas, Lisboa e Madrid também existir internet, o que fez com as que as palavras, infelizes e factualmente incorrectas da chanceler, lavrassem como fogo em campo seco. De imediato choveram as críticas indignadas: “colonialista”, “bismarkiana”, “ tentativa de germanização da Europa”, “uma ameaça para a Europa”. Onde é que é eu já ouvi tudo isto? Uma pista: desde a reunificação alemã em 1990.

Como sempre haviam feito no passado as primeiras vozes que se levantaram a defender Portugal, a Grécia e a Espanha e a apontar a inexactidão estatística de Merkel foram as da imprensa alemã (leia-se a Der Spiegel, o Die Zeit, o mesmo o, afecto à CDU, Die Welt). Isto sim, é uma imprensa livre, crítica, informada e despida de nacionalismos bacocos.

Dando de barato que Angel Merkel esteve mal, mesmo muito mal neste episódio, numa altura em que a Europa tem os nervos à flor da pele, a arrogância – no peito de cada alemão acoita-se um professor – não é boa conselheira, seria no entanto legítimo e decente esperar que a discussão sobre a crise europeia se faça de forma objectiva e sem ataques ad hominem.

O foguetório anti-merkel ( e anti-Alemanha) impede que se distinga o acessório do fundamental neste debate. Portugal está a pagar a factura de não ter aproveitado devidamente a oportunidade de 1985. A culpa é de Merkel? Ou dos Governos portugueses desde essa data até agora? Olhe-se para a produtividade, a competitividade, a “subsidiodependência”, para a redistribuição de tachos, para os défices do sistema de saúde e judicial, para a incapacidade de inovar etc, etc.

Não há volta a dar-lhe, se não quer ser “humilhado”, Portugal precisa de se reformar. A realidade europeia está cheia de bons exemplos de processos de reforma bem-sucedidos, seja com governos mono-partidários ou envolvendo diversos partidos, por exemplo nos países nórdicos. A vontade de reforma, essa tem de vir de dentro e não ser exógena.

Portugal não tem opção e por muito que custem a ouvir as palavras da senhora Merkel ela tem toda a razão em exigir mais rigor, mais disciplina orçamental, mais seriedade.

Com as eleições à porta seria bom que os políticos e os cidadãos percebessem de uma vez por todas que não é na gestão de benesses que um governo demonstra a sua vontade (e coragem) política, é precisamente na situação inversa: na anulação de privilégios e distribuição de sacrifícios, na capacidade de enfrentar interesses estabelecidos e grupos de pressão. Portugal precisa de um Governo que governe. De cidadãos que trabalhem com eficiência. Ah! E de uma imprensa que quando escreve sobre a Alemanha não se assemelhe a alguém com o ar absolutamente perdido de quem levou um muro no estômago e que luta por ar, desesperadamente.

PS- Talvez investir em correspondentes na Alemanha, em vez de ler traduzir takes ou feeds de agências, ajudasse a compreender o mais influente país da UE, e acabar com preconceitos. Mas essa é uma batalha aparentemente perdida…


One thought on “Merkel e a fábula dos portugueses preguiçosos

  1. “Dando de barato” não chega. Este postal vem na mesma onda do “anti-merkelismo” de ontem e hoje. Não interessa o tom pimba de festa, que a Helena indicia. É sintomático. Desagradável. E, sem radicalismos, inadmissível (enfim, pouco admissível). O que avança no postal sobre a situação portuguesa é correcto? Sim, em parte será, há sempre mais factores, mas estes são tonitruantes. Mas, e é isso o assunto do dia, a primeira-ministra alemã não deve botar assim. Seja em que recanto seja. Por isso, pelo que isto denuncia, é pessoa não grata. Por isso, por esta tonta arrogância, por esta ignorância política, é alimento do anti-germanismo. É indefensável a atitude, e não é matizável com contextos.

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