A sopa da minha avó

 Vila-Nova de Baixo. É um povoado sonolento encostado à “bila”, Vila-Real. As casas distribuem-se ao longo de duas estradas, a nacional, prenha de velocidade, e a estrada antiga, cujos seixos redondos e polidos  foram cobertos por asfalto. Uma fiada de ruínas, de casas  esboroadas, com a grandeza de outros tempos,  de fidalgos que passaram a remediados, esquecidas por herdeiros em desacato, convivem com a construção  moderna. O mesmo musgo acastanhado nos muros de pedra, o mesmo cheiro adocicado das flores. No epílogo da estrada destaca-se um caramanchão de pedra a abrigar um Cristo na cruz  e o “parque das merendas” , obra  recente.

Refaço, com o peso da melancolia e  o das aventuras que não tive , aquele que foi o caminho das minhas férias na infância.  Paro no local onde morou a minha avó. Um casarão de granito, janelas pintadas de ocre e um terraço de rosas emoldurado por videiras.  Subo o lance de escadas que leva à porta e abro-a de devagarinho. Assomo à janela que dá para a serra do Marão. Deslumbro-me com a imutável paisagem. Flashes de memória. Essa traiçoeira que molda o passado, que o colore de ternura ou o enche de sombras e encruzilhadas. Quando penso  na  minha avó Emília –  vestida de negro perene, a geografia da vida, difícil, inscrita nos sulcos do rosto, e o cabelo longo, branco, enrolado no topo da cabeça  – surpreendo-me a lembrar-me na sua sopa. Nela fundiam-se couves, batatas, cenouras, nabos, cebolas, azeite e fumeiro. Com uma consistência tão espessa que a colher se mantinha em pé no prato. Essa sopa, cozinhada num pote de ferro sobre a lareira, era a sua forma de demonstrar carinho aos netos. Uma ternura sólida e simples, feita das coisas da terra. A minha avó, talhada em granito, nunca foi de beijoquices ou de contar histórias-  mesmo que quisesse não podia porque nunca aprendeu a ler- mas decantava sentimentos no servia naquela mesa de madeira tosca. “Às vezes a infância manda-me postais”, diz o poeta, podia mandar-me uma sopa…

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