O charco

Vive-se uma espécie de sentimento de David lutando contra todos os Golias. Nada de novo na história portuguesa – dos mouros, à Restauração – feita na distância profunda entre o “ser ideal” e o “ser real”. A idiossincrasia nacional.

Quando as esquadras portuguesas lançaram amarras para construir o império, o país era pobre, acantonado no extremo mais ocidental da Europa. Os feitos dos navegadores dariam uma nova dimensão a Portugal. Nação que fundou o primeiro império ultramarino do mundo moderno e manteria até à exaustão o último império colonialista da história contemporânea.

A pequenez da pátria e a imensa tarefa imperial levaram à crença num “destino civilizador”, o ser “ um povo escolhido” com uma “missão” (descobrir, colonizar, converter). E este mito persistiu durante séculos, de tal forma que o país falhou a Revolução Industrial, permaneceu amarrado a uma economia atrasada, à ignorância e à má governação. Estou a falar dos primeiros anos de 1900, podia estar a falar de agora. O sentimento de superioridade do “povo escolhido”, e as palavras não são minhas, mas de José Luís Cabaço, exprime-se menos na exaltação das suas virtudes e mais na desqualificação do Outro (que nos dias que correm já não são os povos africanos, mas os alemães e mais recentemente na galeria de inimigos, os finlandeses).

O país que revelou ao mundo a verdadeira dimensão do planeta, fê-lo movido por um espírito mercantilista, de avidez pela riqueza rápida, daí que o primeiro objectivo dos reis portugueses fosse a edificação de feitorias. Portugal viveu séculos banhado em ouro, esbanjando riqueza e não se desenvolvendo. E não aprendeu nada de Abril para cá.

Construíram-se auto-estradas, estádios e fortunas rápidas. Ao “Estado Laranja” sucedeu-se o “Boyistão”. Mais gente sequiosa de mais dinheiro e cargos no Estado e nas empresas públicas. Sem qualquer exigência de moral no uso do poder. Perderam-se anos irrecuperáveis na voracidade das economias actuais. Falharam-se todos (TODOS) os indicadores que caracterizam um país moderno e civilizado. Temos um país desequilibrado, injusto, medíocre, clientelar, empobrecido. E que se recusa a olhar de frente a realidade. Os culpados, claro, são sempre  os outros.

“No charco onde a noite se espelha o sapo acredita voar entre as estrelas”, escreveu Mia Couto. É uma metáfora belíssima da situação portuguesa.

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