11 de Abril de 1961 – O burocrata

Antes de ser enforcado, Rudolf Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz, disse que muitas vezes sentia os joelhos fraquejar quando tinha de empurrar crianças a chorar, implorando, para as câmaras de gás. “Senti-me contudo envergonhado desta minha fraqueza quando falei com Adolf Eichmann. Ele explicou-me que especialmente as crianças tinham de ser mortas primeiro; onde estava a lógica de matar uma geração de pessoas mais velhas deixando as mais novas vivas que se podiam tornar numa geração de possíveis vingadores dos seus pais e constituir uma nova célula biológica para a ressurgência do seu povo”.

A 11 de Abril de de 1961 iniciou-se em Jerusalém,o Processo Eichmann, que acabaria com a condenação de Adolf Eichmann à morte. Depois  de Nuremberga este seria um dos marcos fulcrais do “Geschichtsaufarbeitung”(“tratar o passado”, “confrontá-lo”) germânico, mas também israelita.

Eichmann, o burocrata, o organizador da Endlösung, a solução final, a partir da sua secretária,  coordenadou a perseguição, o sequestro e a deportação de milhares de judeus, marcados para morrer nos campos de concentração. Eichmann conhecia o destino dos prisioneiros. Assistiu às execuções nas câmaras de gás, chegando a considerá-las “desumanas”, não para as vítimas, e sim para os carrascos. Após o final da guerra fugiu para Argentina onde seria capturado pela Mossad e apresentado a julgamento. Agora uma exposição em Berlim, na Topografia do Terror, analisa a “banalidade do mal” , o perfeccionismo burocrático do assassino. Porque Auschwitz foi ontem.

Mais de sessenta anos após Auschwitz a Alemanha fez um  longo, intenso, doloroso e exemplar percurso de “Geschichtsaufarbeitung” . Este exercício foi-se intensificando à medida que os doze anos do Terceiro Reich se foram distanciando temporalmente e acentuou-se com a reunificação do país. Hoje  na Alemanha o trabalho de memória não é feito com o dedo acusador apontado,  mas na vigilância perene  do artigo primeiro da Lei Fundamental alemã: “ a dignidade do Homem é intocável”.

O primeiro confronto dos alemães com o passado recente foi involuntário: enquadrava-se no programa de “Umerziehung”(“reeducação”) dos Aliados , através de “visitas” aos campos de concentração  da exibição cinematográfica dos crematórios e das pilhas de cadáveres, da desnazificação e do Julgamento de  Nuremberga.

Em “Política e Culpa”, Gesine Schwan ,  politóloga e ex-coordenadora das relações germano-polacas,  explana o preço político e psicológico daquilo que designa por “Beschweigen”,  o manter deliberadamente o silêncio, sobre os crimes e a barbárie  nazi, na escolas  , na vida pública e sobretudo nas famílias durante os anos 50. Discutivelmente, o filósofo Hermann Lübbe argumenta que terá sido o  facto da Alemanha de  (Konrad)Adenauer durante a década de cinquenta  ter suprimido a memória do nacional-socialismo, conjugando amnistia e amnésia, que permitiu a consolidação social da democracia na República Federal  da Alemanha. A culpa da Shoah deve-se  a alguns, poucos, “Täter”, um mito de inocência pessoal na Alemanha Ocidental e colectiva na RDA. Mesmo os intelectuais ficaram perplexos perante a lâmina acutilante da poesia de Paul Celan, “ a morte é um mestre que veio da Alemanha”  (“Fuga da Morte” 1952).

Ao mutismo segue-se a entrada em força na Academia e nas páginas dos jornais  de dois termos: “Geschichtssaufarbeitung” e “Vergangenheitsbewältigung” (“ultrapassar o passado”). Com a publicação do “ Diário de Anne Frank” e a primeira análise documental do Genocídio  como processo industrial – “ A Noite e a Névoa” de Alain Resnais, 1956 – os alemães começaram a descobrir a empatia com as vítimas.

A década de 60 abre  com dois julgamentos o de Adolf Eichmann, “o” organizador do Holocausto, em 1961 em Israel  e o processo de Auschwitz, em Frankfurt. Foi com o desenrolar deste último processo, que decorreu entre 20 de Dezembro 1963 e 20 de Agosto de 1965, onde depuseram 211 sobreviventes , que a opinião pública alemã  sofreu um violentíssimo abanão. Auschwitz  a realidade incompreensível,materializou-se nas consciências,  tornando-se no sinónimo do mal absoluto.  Fritz Bauer, o procurador público que esteve na origem do processo, afirmava que ele deu à  Alemanha uma oportunidade de usar o sistema legal como forma de auto-reflexão e de aprendizagem “com os perigos da nossa história”.

Com a geração de 68, o movimento estudantil e a ressurreição de teorias neo-marxistas a culpa salta para as ruas. Desafiando o clima público de amnésia colectiva e chamando a atenção para os aspectos pan-europeus do nazismo como variante do fascismo. Os debates sobre as origens do Genocídio foram-se tornando mais sofisticados à medida que paradigmas mais amplos de interpretação se aplicaram para explicar o desenvolvimento do anti-semitismo hitleriano até ao mecanismo organizado de morte em massa.

Nos anos oitenta a competição de memórias talvez seja a característica que melhor descreve o confronto dos alemães com o passado.””Muitos alemães ainda não conseguiam estabelecer conexões entre o seu sofrimento pessoal e aquilo que Hitler perpetrou”, descreve a professora de História alemã contemporânea Mary Fulbrook. “Soah”, o filme do francês Claude Lanzmann, e a série televisiva “Holocaust”, foram bússolas no longo percurso da Alemanha a caminho de se tornar uma nação “normal”.

Foram precisos muitos anos para se reunirem  as condições para  realizar no país   uma exposição de grande fôlego  sobre a indústria de aniquilamento nazi em que o Leitmotiv era o destino das vítimas e não a acção dos perpetradores. Na mostra “ Holocausto. O genocídio nacional-socialista e os motivos da sua memória”,  evitou-se recorrer ao  efeito de choque, perplexidade e comoção – o soco no estômago experimentado por quem visita um campo de concentração ou o Museu do Holocausto em Washington – tendo-se apostado numa organização “clean”, cronológica e tão racional quanto o tema o permite. “ O enquadramento do Holocausto no seu contexto histórico-político é, em particular na Alemanha, onde uma identificação moral com as vítimas exige a ultrapassagem de enormes barreiras psicológicas, muito importante” explica o historiador Hans Mommsen.

Depois de mais de uma década de controvérsias e debates, em 1999, o Bundestag aprovou o Monumento em memória dos judeus  europeus assassinados, em pleno coração de Berlim.  As dimensões deste Memorial ., desenhado pelo arquitecto, Peter Eiseman, não  obscurecem as centenas de monumentos semelhantes espalhados por toda a Alemanha, de museus a campos de concentração, passando por centros de documentação, placas recordando os resistentes ou assinalando a vida judaica. Destinam-se a lembrar não só as vítimas das atrocidades nazis, mas a educar, a informar os ( jovens )alemães sobre os perpetradores e os seus crimes.

O “Nie wieder “ requere vigilância permanente .

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