11 de Abril de 1945 – Buchenwald: um nome para jamais esquecer

Por detrás do vidro, um berço  feito em madeira, pintada em tons de verde. A legenda explica: oé um dos vários exemplares fabricados nas carpintarias de Buchenwald pelos deportados e vendidos pelos esquadrões da morte de Hitler, as SS.

Um testemunho comovente, apenas um dos que podem ser vistos nas exposições permanentes no campo de concentração, e que tornam quase possível ao visitante sentir o doloroso, complexo e contraditório mundo de Buchenwald (1937 a 1945 e, posteriormente, sob a ocupação soviética de 1945 a 1950). Situado a cerca de oito quilómetros do centro de Weimar, na colina de Ettersberg, o campo de concentração (KZ) de Buchenwald começou a ser construído em 1937. No mesmo local onde, 90 anos antes, em 1827, Goethe afirmara ao seu assistente Eckermann, durante um piquenique, “aqui sentimo-nos grandes e livres”.

Buchenwald destinava-se a acolher os opositores políticos do regime nazi, e os socialmente “inadaptados”: testemunhas de Jeová, homossexuais, ciganos e judeus. A associação cultural nacional-socialista de Weimar protestou junto das SS. Não contra a construção do campo, mas contra o nome do mesmo – inicialmente o KZ Buchenwald era designado por KZ Ettersberg – porque este “estava intimamente ligado à vida do poeta Goethe”.

Em Buchenwald foram mortas, até 1945, cerca de 51 mil pessoas: russos, polacos, checos, ingleses, franceses, espanhóis e alemães. Com a transformação em “campo especial”, pelos soviéticos, mais sete mil pessoas, a grande maioria militares nazis, perderam a vida em Buchenwald. A 11 de Abril de 1945, tropas americanas libertaram 21 mil sobreviventes, entre os quais 904 jovens e crianças. O mais novo, Juschu, tinha quatro anos.Cinco dias mais tarde, as tropas do general George S. Patton formaram colunas com os habitantes de Weimar para os levar a ver “com os próprios olhos” Buchenwald. Durante a caminhada – que ficou registada pelas câmaras dos correspondentes de guerra americanos – as mulheres, que eram a maioria, palram, sorriem alegremente. Ultrapassada a inscrição “Jedem das Seine” (a cada um o seu) no portão de entrada, endurecem-se os rostos. Pilhas de corpos magros, nus, como lenha seca, amontoam-se ao lado do crematório, cadáveres semi-queimados estão ainda no interior dos fornos. “As mulheres desmaiam ou choram. Os homens cobrem o rosto e viram a cabeça”, escreveu a repórter da “Time/Life” Margaret Bourke-White. Os libertados, nos seus fatos riscados de azul pardo, aproximam-se para ver como os oficiais americanos confrontam os alemães com o horror. Quando os weimarianos, descreve Peter Meseburger, afirmavam que “não sabiam de nada”, um dos sobreviventes gritou : “Vocês sabiam? Nós trabalhámos ao vosso lado nas fábricas. Nós dissemo-vos e arriscámos a nossa vida com isso. Mas vocês não fizeram nada”.Nenhum campo de concentração poderia ter existido sem uma rede de infra-estruturas e ligações económicas e administrativas.

Não há dúvida que o horror vivido na montanha, em Buchenwald, esteve sempre presente no quotidiano em Weimar. Milhares de Judeus, após 1938, chegaram à cidade por comboio e à luz do dia marcharam até Buchenwald. Empresas privadas “alugavam” deportados a 4 ou 6 marcos diários, consoante as qualificações. As famílias de Weimar passeavam, ao domingo, na Falcoaria das SS, em frente ao portão de entrada do KZ Buchenwald.Desde 1925 que Adolf Hitler vinha várias vezes por ano ao Hotel Elephant, em Weimar, transformando-o numa espécie de central partidária. Em 1938, uma multidão ululante, em frente ao hotel, grita: ” Lieber Führer, bitte, bitte, lenk auf den Balkon die Schritte” (querido líder, por favor vem à varada).

Há poucas cidades alemãs onde o Führer tivesse  estado com tanta frequência e prazer como Weimar. O primeiro governo regional nacional-socialista constituiu-se aqui, após as eleições de 31 de Julho de 1932, onde os nazis obtiveram 42,5 por cento dos votos. Embora o desviar o olhar fosse a regra, existem também histórias de compaixão: alguns weimarianos ofereciam aos deportados, durante o trabalho forçado, uma sandes ou tabaco, outros contrabandeavam cartas para os familiares.

“Penso, que eles não mentiam”, quando diziam desconhecer o que passava na colina, explica Imre Kertézs, sobrevivente de Buchenwald. “Nos oito anos em que o campo funcionou, viram os deportados diariamente a caminho do trabalho forçado, puderam ver a sua miséria, eles sabiam de tudo, por outro lado não quiseram enfrentar este conhecimento, assim não sabiam de nada”.

Artigo que escrevi para o Público a 19.02.1999, quando Weimar foi capital europeia da cultura.

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