“O alemão é uma língua boa para cavalos e soldados”

O meu primeiro dia na rádio foi uma madrugada e a pessoa que me tranquilizou antes de ler o noticiário foi um senhor com “s” maiúsculo, o nosso “dinossauro”. Aqui na redacção  é  ele uma pessoa estimada, generoso, de humor fino e anedotas na ponta da língua , algumas mais e outras menos desbocadas. Como qualquer bom ex-seminarista.

Além da rádio o Carlos tem uma paixão: a escrita. Escreve com tanta graça que não resisto a partilhar um dos emails de segunda-feira que ele envia aos colegas.

“O alemão é uma língua boa para cavalos e soldados”. Esta meiguice não é a conclusão de algum estudante estrangeiro, desesperado às voltas com o curso de alemão – mas antes uma frase famosa, do mais popular dos imperadores da Prússia, Frederico o Grande, que ficou conhecido na memória popular como “o velho Fritz” – “der alte Fritz”.

Eu acho que o velho monarca era injusto. É verdade que o idioma de Goethe não é melodioso como o italiano; mas trata-se dum língua riquíssima e moldável, que se presta com facilidade igual aos contorcionismos da filosofia e aos jogos de palavras da publicidade. O velho Fritz falava melhor francês que alemão; donde podemos concluir que o seu desabafo, esse sim duma brutalidade de caserna, se deveu mais à ignorância do que à experiência.

Mas o melhor é aproximar-nos para ver (ler) melhor. Em alemão, por exemplo, não existe o superlativo absoluto simples numa só palavra: riquíssimo, facílimo, paupérrimo. Recorre-se então a palavras compostas, o que dá uns termos inesperados e muito plásticos. “Stinkreich” (stinken – cheirar mal; reich – rico) para riquíssimo, ou seja, tão rico que até fede. “Kinderleicht” para facílimo (Kinder – crianças; leicht – fácil). “Bettelarm” – pobríssimo (bettler – pedinte; arm – pobre). Podíamos ficar aqui até amanhã a debitar exemplos.

Não há como a língua para revelar a história e a mentalidade dum povo. Os termos que sugerem uma ligação estreita à natureza ou à vida agrícola são constantes: muito trabalhador diz-se “trabalhador como uma abelha” (bienenfleissig); completamente idiota é “estúpido como palha” (strohdumm). Então o porco e a sua companheira têm na língua alemã um lugar de honra. Curiosamente o amigo bácoro tanto aparece em frases positivas (“ter sorte” diz-se simplesmente “ter porco” – Schwein haben) como serve de insulto: és um porco (Schwein) ou então para tirar dúvidas, és um porco porco (Dreckschwein). “Sauschlecht” (Sau – porca; schlecht – mal/mau) diz-se de alguém que se sente muito mal; e “sauwohl” (wohl – bem) de alguém que se sente optimamente. Muda o estado de espírito mas não a porca.

Aí vão mais alguns: obediente como um militante do PCP nos bons velhos tempos, é “kadavergehorsam” (Kadaver é isso mesmo; gehorsam é obediente); cansadíssimo é “cansado como um cão” (hundemüde); e mortíssimo então é “morto como um rato” (mausetot). Um aparelho, uma máquina de manuseamento facílimo, onde não há nada que enganar, é “idiotensicher” (à prova de idiotas). Mas a melhor que vi até hoje, foi esta que se pode ler em ameaçadoras placas nas paredes dos grandes armazéns: “Rauchen polizeilich verboten” – é policialmente proibido fumar. “Verboten” já quer dizer proibido. Não chegava dizer „é proibido fumar“? Não, o superlativo de “verboten” dá em alemão “polizeilich verboten”… e o criminoso, que é como quem diz o fumador potencial, afasta horrorizado a ideia de puxar o maço de cigarros. O respeitinho é muito bonito.

Carlos Martins

PS- Private joke : ” Desculpe sim.”

 

 

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11 thoughts on ““O alemão é uma língua boa para cavalos e soldados”

  1. Engraçadíssimo, o texto.
    O idioma alemão, se “não é melodioso como o italiano”, é musical e fica lindamente cantado, como o provaram Mozart, Schumman, Wagner e tantos outros, e eu hei-de voltar a estudá-lo um dia 🙂

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  2. Peço desculpa pelo abuso, Helena, mas não resisti a fazer link para o CR. Quero dar aos meus leitores a oportunidade de amanhã começarem o dia com boa disposição.
    Obrigado

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  3. Oi Helena,

    Muito bom seu post, inclusive venho com indicação de um outro Carlos, este, do Crônicas do Rochedo.
    Muito engraçado o texto, e também muito inteligente – aliás, como é bom ler esse tipo de texto, não? Concordo com você, Carlos Martins deveria ter um blog.
    Beijos
    Carla

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  4. Gostei muito do texto. Espero que consigam convencê-lo a criar um blogue ou a juntar-se a este. Cheguei aqui pelo link do Crónicas do Rochedo e a seguir vou aproveitar para descobrir um pouco mais do seu blogue.

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  5. Não é tão descabido distinguir do pliciamente proibido do simples proibido, levando em conta que os alemães – passe a generalização – têm muito gosto em proibir coisas aos seus co-cidadãos. Um passatempo de reformados em várias cidades alemãs (Berlim não!) é policiar o bairro não por haver razões de estarem preocupados com a segurança, mas para assegurar que as pessoas deitem o lixo nos respctivos caixotes, não atirem beatas ao chão e estacionem os seus carros de forma ordeira!

    (Outra nota: O velho Fritz só foi rei. Imperadores só voltou a haver em 1871, com Imperador Guilherme I e o seu chanceler Bismarck.)

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