O “raspanete” que não o foi

Se há coisa absolutamente previsível nos comentadores portugueses é a sua aversão à chanceler alemã. O tema dá pano para mangas nos jornais, televisões e blogues (onde o insulto é fácil, copioso e impune), mas não tenho visto qualquer argumento que me convencesse. Aliás, nem tenho visto argumentos, os comentários limitam-se, na sua maioria, a farpas ad hominem. A senhora é “gorda”, “veste mal”, “é feia”, “é nazi”, tem “tiques de leste”, é “arrogante”.

Se Portugal tivesse euros como têm críticos a Merkel há muito que o problema da dívida soberana estaria resolvido.

Contudo, continuar a querer ver a Alemanha e a sua chefe de Governo como herdeira  de Hitler ou de Honecker não é um exercício intelectual sério.  

 Os mais recentes insultos a Merkel prendem-se com “as críticas” ou “raspanete” que Angela Merkel terá passado aos parlamentares portugueses por estes terem chumbado o PEC.

Para começo de conversa as palavras de Merkel foram as seguintes: “ lamento que não tenha [o primeiro-ministro] conseguido maioria parlamentar para as reformas”. Nada mais, nada menos. É uma crítica? Diria que é mais o desabafo de quem vai pagando as contas portuguesas e sabe que ainda vai ter de as continuar pagar, mas admito que se possa ver nelas uma crítica (na minha modesta opinião legítima). Agora um raspanete?

Alguns, como Paulo Morais, acusam-na de “ser mal-educada” e de “não ter sentido democrático” porque nasceu num “país da cortina ferro”.

Vamos por partes. É inteiramente legítimo exercer-se críticas seja ao exercício governativo , seja ao exercício parlamentar de qualquer país  (consulte-se a imprensa portuguesa para ver o que vai sendo escrito acerca da Alemanha), e isto não é sinónimo de má educação. Já acusar Angela Merkel de não ser democrata, não  pode ser descartado à conta de má vontade. É mesmo ignorância. Conhecendo-se a biografia da chanceler, que nasceu em Hamburgo e não num qualquer país da cortina ferro (de onde são originários  Lech Walesa  ou Vaclav Havel, será que eles também não podem contar-se entre os democratas porque têm a mácula do nascimento?), sabe-se que ela cresceu com a democracia à mesa ( o pai, pastor protestante optou por abandonar uma vida confortável na Alemanha Ocidental para se dedicar aos cristãos de Leste e a uma resistência pacífica contra a RDA).  

Faria bem a muitos comentadores/bloggers  um sopro de lucidez , muito leiturazinha e andar pelo mundo de olhos abertos e cabeça limpa.

PS- Uma excepção aos “anti-merkelianos” é Teresa de Sousa. Leia-se a análise publicada hoje no Público. Não a subscrevo na íntegra, mas está despida de preconceitos e é substantiva.

 

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3 thoughts on “O “raspanete” que não o foi

  1. Penso que o problema dos “comentaristas” à portuguesa não se esgota na temática alemã. Claro que para quem conhece a fundo a Alemanha, os disparates debitados dão particularmente nas vistas. Acontece que também noutras áreas a asneirada é de bradar aos céus, menos quando se copiem os editoriais do New York Times e do Le Monde, na convicção absoluta de que o português é burro e analfabeto e não lê a imprensa estrangeira.
    O jornalismo luso está como o resto do país: com uma necessidade absoluta de reformas profundas, que nunca virão.

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