Wake up call para Merkel

 

A energia nuclear morreu, paz à sua alma. Se tudo fosse assim tão simples…

Este fim-de-semana uma tempestade varreu a paisagem política. A reacção histérica e sem base substantiva dos alemães à catástrofe nuclear em Fukushima – a probabilidade de a Alemanha sofrer um sismo seguido de um tsunami é mais ou menos a mesma de ser atingida por uma tempestade de areia – aliada ao furor local anti-Estugarda 21 – um projecto ferroviário – traduziu-se numa votação massiva nos Verdes.

Ironicamente será em Baden-Württemberg, o “Land do automóvel” – cujo PIB, 360 mil milhões de euros, iguala o da Áustria – que pela primeira vez na Alemanha, um ambientalista, Winfried Kretschmann, irá assumir o cargo de ministro-presidente. A chegada dos ecologistas ao poder prenuncia para alguns, se não um tempo novo, pelo menos uma nova esperança. “É uma nova era política”, salienta a co-presidente dos Verdes, Claudia Roth. De facto, os Verdes conseguiram a dupla proeza de afastar do poder a CDU da chanceler Merkel, que governava este estado-federado há 58 anos, e ficar à frente dos sociais-democratas.

 A grande causa dos Verdes  a“Atomaustieg” ganhou dinâmica nacional depois de Fukushima. Arrastada pelos acontecimentos a própria chanceler acabou por reconhecer que via a energia atómica “de um modo diferente”. Ninguém duvida que Angela Merkel, sendo doutorada em física compreenda melhor que muitos as consequências de uma fusão nuclear, agora a sua gestão dos anseios públicos – o accionismo de mandar desligar imediato sete centrais nucleares –  teve uma conotação eleitoralista  e criou anticorpos. São crescentes os sinais de desorientação no governo federal e claramente não parece haver um rumo definido para enfrentar estes tempos tão complexos (leia-se crise do euro, turbulências no mundo árabe, catástrofe japonesa). Vale à chanceler uma conjuntura económica invejável, a taxa de desemprego mais baixa das últimas décadas e o facto da “revolução verde” em Baden-Württemberg ser fruto de um menor denominador comum que promete um programa que obedece a maior vontade comum do eleitorado: o desligar as centrais nucleares. As eleições regionais de domingo foram assim uma espécie de wake up call para Angela Merkel.

 A paz no Burundi e a política económica

 Voltemos agora a Estugarda. Durante décadas os Verdes tiveram o luxo de estar na oposição sem propor soluções. Agora vão ser postos à prova, confrontados com a Realpolitik. E esta é como se sabe incomplacente.

Dei-me ao trabalho de ler o programa político dos Verdes para Baden-Württemberg e não escondo que me causa desconforto (se fossem aplicadas todas as medidas lá contidas muitos daqueles que agora votaram no partido do girassol ficariam  de cabelos em pé ). Desligar as centrais nucleares? Sim, mas devagar, porque a factura é pesada e os obstáculos são muitos (é preciso não esquecer que o Land é dono de quatro centrais nucleares do grupo energético EnBW ). Palpita-me que os mais apressados vão ficar desiludidos.

Com uma ironia sagaz o Der Spiegel,perspectiva a transformação de Baden-Württemberg num “Land do arco-irís” – devolvendo-se a “democracia às ruas”, descriminalizando-se o consumo de drogas leves ou instituindo-se um comissário anti- discriminação e para  as questões de género em todos os postos policiais –  embora eu não vá tão  longe, incomoda-me a alegre descontracção com que se coloca “ a consolidação do processo de paz no Burundi” (!!!! ) como uma prioridade governamental, antes da política económica, da política de educação e da política para a ciência. No estado-federado  da SAP, da Porsche, da Daimler, da Bosch, isto não é grave. É gravíssimo.

Felizmente que no meio disto tudo há Winfried Kretchmann. O professor de biologia reformado, que agora será ministro-presidente, é uma pessoa sensata, daquelas que  preferem cantar no coro da igreja (católica) a  fazer discursos ideológicos inflamados. Como é que não se pode simpatizar com  uma pessoa que cita o seu antecessor (um democrata-cristão), “para mim está primeiro o Land, depois o partido e depois a minha pessoa” e acrescenta  “meus senhores hoje festejamos, mas temos de acabar cedo, porque amanhã é dia de trabalho”?

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