Tradutor de chuvas


O escritor moçambicano Mia Couto regressa à infância num novo livro de poemas, “Tradutor de Chuvas”, para prestar homenagem a “esse estágio de espanto, de pasmo e da capacidade de nos encantarmos”.

“Cores de parto”, “Saudade”, “Ignorâncias Paternas”, “O Degrau da Lágrima”, “Tradutor de Chuvas” – o poema que dá título à obra e que remete para a importância da chuva na realidade moçambicana são alguns dos poemas que integram esta obra em que o escritor se revê em jovem.

FRUTOS

A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.

 


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s