Um modo de querer entender o Mundo

Dos muitos textos de opinião e comentários que li sobre as manifestações de 12 de Março houve um que de gostei particularmente. É assinado pelo jornalista Paulo Nuno Vicente e foi publicado, where else?, no Facebook. Trata-se de uma reflexão sobre os problemas do jornalismo português e a sua dificuldade em lidar com uma nova forma de protesto pós-moderna que extravasa “os desajustados esquemas mentais da “classe”, do “género” , da “geração”, do “partido” “.  Partilho.

Desde, pelo menos, a década de 1970 que a sociologia vem demonstrando como, em casos identificados, o Jornalismo trabalha como pura legitimação do status quo; é também necessário dizer que muitas das soluções sugeridas não conseguiram fazer melhor – a exemplo, as ditaduras que abraçaram a causa da “comunicação do desenvolvimento”.

Até certo ponto, os jornalistas – um “nós” profundamente diverso – sugerem aos leitores a agenda de temas e geografias importantes, a que devem dedicar atenção e sob que ângulos o “devem” fazer.

É também certo que, tradicionalmente, o Jornalismo se preocupa mais com “acontecimentos espontâneos” do que com a explicação de “processos” compostos por várias camadas de sentido, nem sempre óbvios e nem sempre sintetizáveis em trinta segundos de som, imagem ou a cinco parágrafos de texto

 (…) é justo e imprescindível perguntar: Para onde tem vindo a olhar essa perversa “sismografia jornalística” dentro de fronteiras? 

Considerando o que hoje se vive nas ruas de várias cidades portuguesas – embora as televisões só mostrem Porto e Lisboa – é justo e imprescindível perguntar: Para onde tem vindo a olhar essa perversa “sismografia jornalística” dentro de fronteiras?

  Sugiro uma resposta breve e genérica: para o status quo nacional – para a sua agenda e os seus ângulos – desligando acontecimentos de processos, afastando-se do que realmente é considerado importante pelos cidadãos portugueses.

 A quem se acomodou aos bureaus editoriais e aos seus honorários financeiros e simbólicos, aos corredores e circuitos do Jornalismo Político, Cultural, Internacional, Desportivo… sugiro uma simples tarde de esforço de apreensão da realidade em qualquer fábrica, escola secundária, universidade, empresa, hospital…

Não é de espantar que muitos dos melhores cérebros que Portugal tem à disposição – da Literatura, à Música, às Ciências Naturais, à Economia – se afastem, emigrando, física ou mentalmente.

 Exemplo de há instante, retirado da televisão:

 Repórter – “O que é que está a fazer aqui na manifestação?”

Interlocutor – “Vim ver os pardais…”

 O Jornalismo português vem mostrando a saturação da mise-en-scène, da encenação superficial dos directos, das perguntas desligadas das preocupações quotidianas de cidadãos que deveriam ser o alfa e ómega da profissão. A verdade é essa: o Jornalismo não deve ser apenas uma profissão, mas um modo de querer entender o Mundo.

 Está por um fio a legitimidade jornalística quando fala dos pecados e crimes do status quo partidário e económico. E muito mais pode ser dito e demonstrado a este respeito.

 Felizmente, há dentro e fora das fronteiras nacionais profissionais que honram o Jornalismo.

 

Bem hajas Paulo (e desculpa a apropriação do status, mas é bom demais)

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3 thoughts on “Um modo de querer entender o Mundo

      1. Retirado de “PNVICENTE.COM” 🙂
        este foi o meu coment eu como a concordancia é vasta aplico neste espaço digital o mesmo sopro do que sinto.
        bom trabalho.

        “vim ver os pardais”, foi a melhor frase que do meu pequeno escroto mental consegui tirar…
        Imaginem!

        X – Tás cá hoje?

        Y – Não tive cá ontem!

        Enfim creio que o nosso jornalismo é lindo ao mesmo tempo que se perde em perguntas, por vezes engraçadas.
        Será que devo pensar que existem muitos ou demais jornalistas, que na sua insignificante remuneração sei lá, vida ou inteligência encapotada, vão para directos com as perguntas que escreveram nas WC das carrinhas onde vai a régie para os directos? Como se estas tivesses WC…
        Enfim gostei da pequenina entrevista que a Sra. Povoas com todo o respeito que me é conferido, me fez na bela praça do Rossio junto a uma fonte que a ser mais uma voz afundava o parlamento.

        Obrigado pela partilha ideal e sem idealismos que postas no teu blog.
        Um pouco enrolado entre palavras caras que nem todos os que estão à rasca percebem, mas com algo essencial… Existem para aí uns jornalistas do medo, sem com isso dizer que amo e venero a conquista pelas respostas e a divulgação do Tudo, muito mais que compreensão a jornalismo devo a alma de todo e qualquer interesse.
        Se encontrares algum link onde consiga ver a entrevista chuta para mim… Ficaria muito contento pois queria muito trabalhar nele.

        Abraço e boa continuação.

        Gostar

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