A queda de Ícaro

Karl-Theodor zu Guttenberg podia ter saído de um poema épico, de um soneto ou de um romance clássico, mas é real e escolheu a política. Que fez dele, aos 39 anos, o político mais popular da Bundesrepublik – um sucessor a prazo de Angela Merkel – e lhe demonstrou da forma mais cruel que, mesmo na estratosfera valem as leis da gravidade. Uma vitória da decência sobre o Bild.

São poucos os políticos a ter crescido num verdadeiro castelo do século XV, com frescos e mordomo de luvas brancas, com motorista, jardineiro, galeria de retratos de antepassados centenários. São poucos os políticos a ter um avó morto pelas SS por ter ousado resistir ao nacional-socialismo e a pertencer simultaneamente à família de Stauffenberg e de Otto von Bismarck. Um berço de ouro que é capital, numa altura em que o respeito pela classe política é reduzido, e lastro, compelindo o Barão para uma espécie de competição com os seus antepassados. Só assim se explica o desastre do título, desnecessário, de Doutor. Lembre-se que ele foi o político eleito para o Bundestag com mais votos directos ( nominais e não no partido, a CSU).

Ainda que Karl-Theodor zu Guttenberg tenha convicções sérias, fruto de uma educação elitista e um sentido de dever aristocrático – aos doze anos já demonstrava a sua eloquência ao representar a família nas festas das várias empresas – condenou-se ao fracasso numa procura frenética do estrelato. Ninguém em seu perfeito juízo leva a mulher ou um talk-master para o Afeganistão quando visita aos tropas. Quando um político é ratificado por apresentadores de televisão e leitores do Bild a insegurança e superficialidade tornam-se inevitáveis. Guttenberg personifica uma curiosa mistura de fulgor, glamour e fragilidade a tocar a reverência com que procura a aprovação das massas. E estas como borboletas em torno de uma lâmpada, adoram-no.

A luta que travou pela sobrevivência política após terem sido conhecidas as acusações de plágio em múltiplas passagens da sua tese de doutoramento – que lhe foi atribuída pela Universidade de Bayreuth com a nota máxima de summa cum laude – lembram a luta de Willy Brandt e a sua moção de confiança. Em pleno horário laboral, mais de dois milhões espectadores estiveram colados à televisão a assistir à sessão de perguntas e respostas no Bundestag.

Politicamente astuto, inteligente em elevado grau e um dos melhores ministros da Economia desde Ludwig Erhard, porém com uma certa propensão para ceder a impulsos inconsiderados e actos autodestrutivos, Guttenberg foi navegando à vista. Todavia, apesar de todo o apoio popular, a pressão tornou-se insustentável quando a Academia, ferida na sua virtude, se juntou ao coro dos desagradados. Esta terça-feira Karl-Theodor zu Guttenberg apresentou a demissão como ministro da Defesa e o seu discurso de despedida foi uma elegia de angústia. “É o passo mais doloroso da minha vida, mas quem se decide pela carreira política não pode esperar compaixão (…)Sempre estive disposto a lutar, mas atingi o limite das minhas forças”.

Travessia do deserto

Como pouco políticos na Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg suscita ódios e paixões extremadas. De tal modo que até Gregor Gysi , do Partido de Esquerda, acredita que o barão “terá uma segunda oportunidade”. No Facebook existe já uma página “Wir wollen Guttenberg zurück!” (queremos Guttenberg de volta) que em poucas horas reuniu mais de 300 mil apoiantes. Não há muitas dúvidas que após um período de travessia do deserto o barão estará de volta. Talvez em 2013 por altura das regionais na Baviera.

Dito isto, duas notas finais.

Não creio que esta demissão tenha fragilizado a chanceler, antes pelo contrário, livra-o do único político que lhe fazia sombra. Contudo, não será fácil para Merkel – que como mulher pragmática defendeu nos limites do possível o seu ministro – arranjar um sucessor à altura. Por vários motivos: as Forças Armadas alemãs enfrentam uma das mais profundas ( e contestadas) reformas da sua história e são contam-se pelos dedos de uma mão os políticos com autoridade e perfil para a prosseguir. Por outro lado, o cargo de ministro da Defesa implica momentos particularmente difíceis como o lidar com os mortos de guerras impopulares como a do Afeganistão.

Segunda nota. Pergunto-me o que fazem os Professores da Universidade de Bayreuth, como o conceituado Peter Häberle, orientador da tese de doutoramento do ex-ministro? Será que atribuem notas por simpatia? Ou não se dão ao trabalho de ler as teses? A Universidade de Bayreuth sai muito mal na fotografia, não admira que agora ataque em todas as frentes o seu ´”menino prodígio”.


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