Quando constatei que já não se faziam alemães como dantes

Naquela Primavera de 1993, não era o único a recuperar do abanão que pouco antes sacudira toda a Europa Central, pondo fim ao século XX, que, em rigor, foi bastante curto se estendeu de 1914 a 1989. Tinha sido contactado por um diplomata checo, igualmente jovem, que procurava estabelecer contactos com jornalistas que escrevessem sobre os que sucedia do lado de lá da antiga cortina de ferro.

À boa maneira portuguesa, desafiei-o para tratar do assunto à mesa e combinámos almoçar numa modesta, mas honesta, cervejaria lisboeta.

Ainda enquanto estudávamos a ementa, constatámos ter em comum, além da idade e do interesse pela conjuntura geo-política da época, uma afinidade especial com a Alemanha.

Ambos tínhamos conhecido aquele país, as suas gentes, costumes e cultura.  E enquanto mandámos para trás o pratinhos de presunto e a salada de polvo, que não tínhamos pedido, e mandámos vir duas meias doses de linguadinhos fritos com arroz de tomate malandrinho e duas imperiais, concluíamos que cada um de nós conhecera, afinal, uma Alemanha distinta. Ele a oriental e eu a ocidental.

Tínhamos aí assunto mais do que suficiente para nos distrair da verdadeira intenção daquele encontro: trocar impressões sobre a desintegração (desta vez pacífica) do Estado checoslovaco. Na verdade, um e outro assunto até estavam relacionados. Não fora a situação na Alemanha de Leste a precipitar o desaparecimento quase instantâneo do pacto de Varsóvia?

Os linguadinhos, fresquíssimos, diga-se, vieram para a mesa. E, quando chegaram as segundas imperiais, já especulávamos sobre o quanto a nova Alemanha reunificada ainda iria precisar para zusammenwachsen. Concluímos que dificilmente demoraria menos que uma geração. E não se teria Helmut Kohl percipitado com a unificação? Não teria sido apressada a união monetária em que se trocou o marco oriental pelo marco ocidental numa relação de 1 por 1? Não se terá Kohl igualmente precipitado ao reconhecer unilateralmente o direito da Croácia e da Eslovénia a separarem-se da Jugoslávia? Afinal, que Alemanha era aquela que estava a emergir ali em pleno centro da Europa?

Depois da sobremesa e do segundo café ainda não tínhamos uma única resposta. Pedimos mais duas imperiais, talvez elas trouxessem algum esclarecimento. Com as duas que se seguiram, brindámos em alemão – Prost! E passámos a tratar-nos por tu. A meio dessas veio um pratinho de tremoços. Ensinei-o a descascá-los. O certo é que as perguntas continuavam todas em aberto.

Tocados pelo Zeitgeist de então, discorremos sobre o gigante unificado no meio da Europa. E o quanto ele tinha mudado. É que, comentei, numa ida recentemente à Alemanha, onde crescera, aquele país já não me parecia o mesmo.

Os alemães estavam novamente juntos mas não pareciam felizes com isso. Tinham-se transformado, era essa a impressão, numa gente lamurienta e quezilenta. Os ataques a imigrantes e a lares de refugiados eram notícia e destacavam-se mais pela sua brutalidade do que pelo número de ocorrências. Saltavam muito à vista, até por causa do estigma histórico. Na realidade, a Alemanha não nos parecia mais xenófoba do que a França de Le Pen. Mas estava-o mais do que alguma vez a conhecera.

Mas agora era-o com os seus próprios cidadãos do Leste, que migravam para as zonas ocidentais mais prósperas. O muro de betão e arame farpado teimava em permanecer na cabeça das pessoas.

O incumprimento da promessa de paisagens florescentes transformou a euforia da queda do muro em Vedrossenheit. Era com um azedume ressabiado que os Wessis mais endinheirados procuravam manter à distância os Ossis, tidos como pelintras e pirosos na maneira de vestir. O Ossi era olhado como uma espécie de aldeão que ia à cidade competir com os de lá pelo posto de trabalho. Estava disposto a trabalhar por um salário inferior ao do ocidental, mas, mesmo assim, melhor do alguma vez podia ambicionar no Leste se tivesse a sorte de arranjar emprego.

Nas sala já só estávamos nós. Mas ainda havia sede e tempo para mais dois finos.

Entre alemães existia, de facto, uma certa má vontade. Constatei-a, incrédulo. Os comentários em relação aos Ossis eram idênticos aos que ouvira em relação aos Gastarbeiter, die sich im Gastland gefälligst als Gast behnehmen sollen. Só que o Ossi, entretanto transmutado em figura de anedotas, não era hóspede. Era um estranho no seu próprio país.

Era, assim o preconceito, mais atrasado, mandrião, menos instruido, mesnos produtivo, menos competitivo, mais rasca e menos todo o resto que é necessário para sobreviver numa Leistungsgesellschaft.

A verdade é que em tão pouco tempo, a Alemanha tinha mudado tanto, que já não se encontravam alemães como dantes.

De uma maneira geral, tinham-se tornado menos pontuais, menos rigorosos, menos asseados e menos sérios – o processo de privatizações em massa no Leste foi corroído por várias trafulhices. Entre alemães instalara-se uma certa propensão para a chico-espertice,
a medida que a economia social de mercado revelava falhas que só a guerra fria e a competição das duas ideologias antagónicas que dividiram o país tinham conseguido mascarar.

O próprio Helmut Kohl viria, mais tarde, a abandonar o poder pela porta pequena na sequência de um caso relacionado com financiamentos partidários. Em suma, a percepção era a de que o país se tornara menos gründlich. O que seria feito da minuncia prussiana? A preussische Gründlichkeit era a pálida sobra do que já fora…

A dada altura, o meu interlocutor pousou o copo para descascar um tremoço e abrindo o rosto num largo sorriso perguntou: «E sabes como é que isso aconteceu?»

 Olhei-o expectante.

«Fomos nós, povos eslavos, que os estragámos em 45 anos de coabitação com eles no bloco socialista. Conseguimos contaminá-los com o nosso laxismo, a falta de pontualidade e desleixo. Agora os do Leste estão a infectar a outra parte.»

 «Não pode ser», protestei reclamando parte dos louros para os povos latinos: «Isso são tudo características mediterrânicas».

Francisco Galope

 PS- Um enorme muito obrigada ao Francisco por esta crónica ( exclusiva aqui para a Domadora) em registo tão pessoal.


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