O Pacto de Fausto

A batalha pela democratização no Egipto trava-se em duas frentes: nas ruas e na Sala Oval.

Quando a Guerra Fria acabou, já Hosni Mubarak era presidente do Egipto há uma década e era uma, senão “a”, figura crucial no jogo de poder no Médio Oriente. A Guerra Fria não deixava muito espaço para nuances de cinzento. Tudo era preto ou branco, isto é, o “teu” ditador e o “meu” ditador. Mubarak dominava como poucos o jogo dos satélites, o que lhe permitiu, após o colapso da antiga ordem mundial, afirmar-se como “ uma garantia de estabilidade”, uma “lança no mundo árabe”. Os Estados Unidos e as chamadas democracias ocidentais fizeram como ele um pacto de Fausto: silêncio perante a autocracia do “Faraó” – as violações dos direitos humanos, a violência contra as minorias, a tortura nas celas policiais em troco da estabilidade na maior nação árabe do mundo.

Agora que o regime egípcio perdeu a legitimidade popular e o pacto foi estilhaçado nas ruas, a prudência é a palavra de ordem em Washington. Mais: o discurso de Barack Obama na Universidade do Cairo – lembram-se? – onde falou de direitos e de democracia à sociedade, à juventude e às elites árabes frustradas, no qual o presidente sublinhou que o défice democrático  contribuía para os problemas estratégicos que alimentam a instabilidade regional, parece ter sido colocado na prateleira da mera retórica. Alguém escreveu que a dimensão histórica de um discurso não se avalia pela eloquência, mas pelo que sucede depois, pelas consequências que as palavras suscitam.

Olhe-se para as ruas do Cairo onde a liberdade anda no ar. Alguns temem que esta alegria seja passageira e inconsciente, mas a verdade é que muitas das faixas estão escritas em inglês, os apelos dos egípcios dirigem-se aos norte-americanos. É impossível deixar de se sentir contagiado por essa alegria, mesmo estando consciente das dificuldades que ainda aí vem.

O dia de amanhã será decisivo. Na frente política seria boa alguém recordar aos conselheiros do presidente norte-americano que esta é a hora de se prestar um tributo à democracia, por de lado o cinismo e fazer xeque-mate a Mubarak. Não há alternativa, até porque outra opção significaria entregar, mais tarde ou mais cedo, o Egipto num tabuleiro à Irmandade Muçulmana. Tremo só pensar nisso.

 


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