O arquivo de Ringelblum

3 Agosto de 1942, Rua Nowolipki 68, Varsóvia. Dez caixas de metal são enterradas na cave de uma escola. É um espólio extraordinário. Um mundo dentro do mundo, um tempo dentro do tempo.

A UNESCO não tem dúvidas, trata-se de um dos mais importantes arquivos do mundo. Testemunhos clandestinos da vida no gueto de Varsóvia. Gritos que soletram todas as sensações do desespero.

São milhares de documentos catalogados com rigor. Textos literários, documentos pessoais, manuscritos, estudos sociológicos, jornais, documentos oficiais alemães, em yiddisch, alemão e polaco, reunidos por uma sociedade secreta, a “Oyneg Shabes”, em torno do historiador Emanuel Ringelblum. Em hebreu moderno “Oyneg Shabes” significa a alegria de Sábado (porque os membros se reuniam com frequência nesse dia). Os seus cerca de cinquenta associados eram rabis e artesãos, comunistas e economistas, sionistas e assimilados. Verdadeiro caleidoscópio judaico onde não havia tempo para querelas ideológicas. Quando se ouvem ao perto os passos da morte que caminha ao nosso encontro, reunir factos, provas da aniquilação para que alguém conte a história, ajuda a amaciar o sofrimento.

O arquivo de Ringelblum é uma narrativa colectiva nos limites da vida e da humilhação. Uma vida num cadinho de fome, desespero e doença, intersectada com muitas histórias de heroísmo silencioso e de auto-sacrifício.

Alguns dos materiais recolhidos são uma reserva ilimitada de cinismo e torpeza, de mutilação moral. Dois exemplos. Um dos documentos (alemão) especificava a quantidade diária de calorias a ser distribuída em Varsóvia em 1941, aos alemães cabiam 2613 calorias, aos polacos 633 e aos judeus 184. Outro, um poster de 1942, prometia três quilos de pão e um quilo de marmelada a quem voluntariamente se oferecesse para ser deportado.

No seu diário, publicado em inglês em 1958 – e que serviu de inspiração para novela de John Hersey ,“The Wall” – Ringelblum anotou “o mais terrível é ver as crianças a tremer de frio. Esta noite ouvi uma criança de três ou quatro anos a gemer. Amanhã devemos encontrar o corpo”.

Quando começaram a chegar ao gueto de Varsóvia as notícias das deportações e dos assassínios e massa, Ringelblum decidiu esconder o arquivo. Um dos seus maiores medos era que ninguém sobrasse para o desenterrar. Da meia centena de pessoas que faziam parte da “Oyneg Shabes”, apenas três sobreviveram ao Holocausto. Seria um desses sobreviventes, Hersz Wasser – que fugiu de um comboio a caminho do campo de extermínio Treblinka – que depois da guerra conduziria as escavações para o recuperar.

O historiador Emanuel Ringelblum, seria fuzilado, com a sua família, em 1944. Mas, o legado que nos deixou, hoje na posse do Instituto Histórico Judaico de Varsóvia, entranha-se. Ficamos-nos debaixo da pele para que nunca se apague. O gueto de Varsóvia não foi um acidente. Auschwitz não foi um acidente. Nasceu da nossa cultura – europeia e não apenas alemã – e pode regressar. Auschwitz foi construído em nome da “civilização” e contra uma suposta barbárie. Dostoievsky escreveu que se Deus morre tudo passa a ser permitido.


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