O preço de uma vida

 

Fotografia da UNHCR

A primeira vez que acontece não acreditamos. É como um sonho mau. Só que longe do conforto da cama e com a agrura da realidade. Perguntaram-me, num país africano, se queria comprar uma criança. Mais do que uma vez.  Abri muito os olhos e recusei, como quem repudia uma peça de artesanato oferecida por um mercador insistente. Queria poder não ver a vida na progressão geométrica do desespero, mas não consegui.

Esta reportagem de André Catueira da LUSA recordou-me esse episódio e os “descartáveis” do continente africano. Arbustos na savana esmagados pela passagem dos elefantes da vida.

Moçambique: Quando uma criança pode custar entre 500 a 1500 euros

Uma criança pode custar entre cinco mil a 15 mil randes (500 a 1500 euros) em Macuvo, província de Manica, centro de Moçambique. Ali há pais que vendem filhos para pagar dívidas ou minimizar a fome de toda a família. 

Macuvo é uma povoação isolada nas montanhas que fazem fronteira entre Moçambique e o Zimbabué, onde o negócio de crianças parece fazer parte da normalidade. “Passou há pouco tempo um senhor com uma criança à venda”, conta, indiferente uma professora da região, que fala de “capoeiras de crianças na zona”. Ali, a venda de crianças parece ser o negócio mais rentável na região. Acontece geralmente com meninas, com o propósito de as casar com o potencial comprador, “mas algumas podem estar a entrar para a rota de tráfico”, admite à Lusa um morador, que admira viaturas de luxo que circulam nas poeirentas estradas locais. 

As estradas são degradadas e em tempo chuvoso não circulam viaturas. Junto de uma pequena palhota estaciona-se o último modelo da Toyota 300, 4X4, a gasolina. “Tem Hummer e Chevrolet do último modelo que vem aqui”, anuncia o morador. “Eu precisava de dinheiro (para lobolar uma outra mulher), fui procurar um curandeiro para emprestar. Levei seis mil randes (600 euros) e em troca dei a minha filha de cinco anos. Eu falei com a mãe e ela cedeu a criança para resolvermos o meu problema”, disse à Agência Lusa um homem (nome omitido) que vendeu a filha. O homem foi condenado a seis anos de prisão, pelo Tribunal Judicial Provincial de Manica, por negócio ilícito e cumpre a pena na Penitenciária Agrícola de Chimoio. Este foi o único caso, ligado à venda de crianças em Macuvo, que chegou a justiça, mas outros cinco casos foram reportados, este ano, pelas autoridades governamentais locais. 

Na região, por um caminho estreito de argila chega-se a um grande quintal, casa de alvenaria, duas antenas parabólicas e seis palhotas. Ali vive um homem que se proclama “rei” da zona e que tem fama de comprar crianças, o que nega, afirmando tratar-se de “conspiração”. Reformado das forças policiais da África do Sul, onde viveu até 1994, responde assim às acusações: “Veio aqui (em casa) um senhor com uma criança querendo um empréstimo de seis mil randes e me daria como garantia uma criança, eu neguei porque a criança era muito pequena em relação ao montante solicitado”.Mas adianta que algumas pessoas idóneas, ligadas ao tribunal comunitário local, o aconselharam a fechar o negócio. “Para ajudar aquele homem aflito”. E conclui que acabou por dar os seis mil randes, mas sempre clarificando: “se eu comprasse crianças este talhão seria pequeno”. As autoridades mostram-se preocupadas com o negócio de venda de crianças na região, reconhecem que existe, mas admitem “haver muito trabalho pela frente para cortar o mal pela raiz”, segundo Manuel Quandai João, chefe da localidade de Macuvo.


4 thoughts on “O preço de uma vida

  1. Isso me dá um frio na espinha só de pensar. Como nossas vidas são diferentes.
    Me dá um aperto no coração imaginar me desfazendo de um filho pra pagar uma divida e me asco de ver que tem gente doente o suficiente para comprar uma criança.

    Gostar

  2. Helena, seu post me fez lembrar uma reportagem que li na semana passada sobre a fome em África. Um dos homens na reportagem tinha 19 filhos, todos passando fome. Mas, gente, uma pessoa com 19 filhos até na Europa tem dificuldade para alimentar a todos, quanto mais no Quênia. Aí precisam vender os filhos porque não conseguem sustentá-los. Por isso acho que a questão da alta taxa de natalidade entre os africanos é um assunto muito sério e de que pouco se fala nos debates sobre desenvolvimento. O que você acha?

    Gostar

    1. Esta é uma questao complexa Francis.
      Concordo contigo que é necessário fazer-se uma refexao profunda sobre planeamento familiar em África, continente onde os filhos sao vistos nalguns casos como um mero recurso ( no sentido económico da palavra) e noutros como uma afirmacao da masculinidade dos pais ( muitas vezes polígamos).
      Sei que cada vez que vejo meninos e meninas com fome me dá um aperto no peito e apetece-me dar dois berros ( o problema é a quem os dirigir…)

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s