As capulanas falam

  À procura de capulanas em Maputo. Não na Casa Elefante – sobre ela há pouco a dizer, é “apenas” a mais bela loja de tecidos africanos que conheço – mas nas ruas da cidade. E vejo muitas, num sortido tutti frutti de cores e “estórias”. Sim “estórias” porque as capulanas falam. São vida, amor, ciúmes, sexo. São sobretudo mulher. O modo de  amarrar a capulana ou o lenço revelam  se a mulher é do Sul, do Centro ou do Norte, se é da costa ou do interior, se está noiva, se é casada, se é divorciada, se é viúva…

Não há mulher em Moçambique que não use esse pedaço de tecido de algodão. Para  vestir, para belecar ( amarrar às costas os bébes, nesse caso a capulana  tem o nome de ntehe)  como  cortina ou toalha , como saco ou trouxa. Na vida de uma mulher moçambicana, todos os momentos importantes –   o lobolo, o luto, a prática de medicina tradicional – têm a capulana como compasso. 

“Guardadas nos baús, as capulanas são o símbolo da riqueza que uma mulher possui. Foram-lhe oferecidas pelo homem que as cortejou, o marido que as amou, o filho quando regressou das minas do Transvaal, o genro que lhe quer a filha. A dona não as usa, guarda-as, entesoura-as. Só uma ocasião muito especial as fará sair à luz do dia. Mas podem ser oferecidas como presente, à filha, à futura nora, à neta no seu casamento. E quando a dona morrer elas passarão como herança para as descendentes suficientemente afortunadas para serem contempladas com elas. Mas a avó, em dia de boa disposição, pode chamar a neta para lhe mostrar as capulanas guardadas e falar-lhe do passado. A capulana, aqui, é documento histórico”.*

Mas, também é futuro. Esta semana foi lançada em Maputo uma nova capulana. Uma capulana educativa  para transmitir informação relativa à prevenção da malária. Cinco mensagens foram escritas no tecido:, desde um  apelo à pulverização até ao conselho de dormir debaixo de uma rede impregnada com insecticida.

 

*Texto extraído do livro Capulanas & Lenços, publicado pela Missanga


7 thoughts on “As capulanas falam

  1. a capulana também é mesa e morte…
    as pessoas também escolhem as capulanas que as vão cobrir para sempre… e informam aos seus parentes… que não haja engano!

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  2. Olá,
    Ao fazer uma pesquisa no google encontrei o seu texto, que muito apreciei, é sempre um prazer ouvir falar tão bem da nossa terra!
    O meu nome é Joana, sou moçambicana e lancei uma marca em Portugal, há cerca de 1 ano que se chama “kapulana”, onde tenho uma grande variedade de artigos todos feitos com as capulanas de Moçambique.

    Peço desculpa pelo “abuso” e pela “publicidade”, queria apenas deixar os meu parabéns pelo seu texto sobre as capulanas.
    Um abraço,
    Joana
    PS – Se quiser saber mais sobre a “kapulana” também temos uma página no FACEBOOK

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  3. O tema è delicioso. Mas, Mocambique não produz capulanas…ha mais de 30 anos. Pior, jà não sabe fazer. Zambia, Malawi,Tanzania India, Indonésia , são os autores..nada invalida o valor que a Mulher Africana atribui, ao corte e ao print. ….mais la veritè c’est la veritè.

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