Retórica e realidade

Uma das formandas de "Making Finance Work for Africa" a entrevistar "empresários" do sector informal.

Manhã de sol, segunda-feira, Avenida 25 de Setembro (data que evoca o ínicio  símbólico da luta armada contra o colonialismo português). Artesãos, sentados no chão, vendem estátuas em madeira, caixinhas, pentes. Jovens vestidos de colete amarelo ( patrocinado por uma empresa de telecomunicação de que o Presidente  Armando Guebuza é dono) estendem carregamentos telefónicos. Taxistas legais e ilegais competem por clientes, numa desordem ordenada. É o chamado sector informal da economia.

 O táxi leva-me a Sommerschield, a zona nobre de Maputo onde ficam as mansões dos diplomatas, magnatas e/ou dirigentes políticos. É aqui que venho assistir a uma conferência económica, “África e Novos Actores Globais”. No Centro de Conferências  reúne-se o who is who dos negócios moçambicanos. Os oradores – diplomatas, onusianos e académicos- conversam no palco como velhos amigos, debitando estatística, lugares comuns  e insurgindo-se contra o “afropessismismo”. Batem na tecla  do “capacity building” e usam o vocabulário “workshopista” feito de siglas, ele são os  BRICS, o BAD, o PNUD , a UA, os ODMs. Para bom entendedor meia sigla basta.

No final da conferência dirigi-me a um dos oradores perguntei-lhe se se estaria disposto a conversar  com  jornalistas moçambicanos (os que integram o curso de “Making Finance Work for Africa” que me trouxe a Maputo). Respondeu-me “foi um prazer conhece-la, mas mal tenho tempo para cumprir os compromissos da minha agenda social”.  E nesse contraste entre a retórica e a realidade vai toda a economia do país.

Antes dos tumultos  populares de Setembro,  lia-se num fórum online “existem vários mundos em Maputo. Condomínio e palhota. Fome e abundância. Campos de golfe e supermercados gourmet ao lado de casas sem água, electricidade, saneamento e comida na mesa”. A revolta, como escreve Cristiana Pereira, “trouxe a descoberto as assimetrias próprias de um país em que mais de 90 por cento da população vive com menos de dois dólares por dia. Com 1,3 milhões de habitantes, a cidade de Maputo apresenta uma taxa de pobreza de 53 por cento, sendo que 70por cento da população recorre a actividades informais, segundo um estudo de 2007 sobre pobreza urbana, do instituto norueguês CMI. Diariamente, a chamada “cidade de caniço” – residente nos bairros suburbanos – desloca-se a pé ou no transporte semi-colectivo, conhecido por chapa, para executar os serviços que asseguram o funcionamento da «cidade de cimento», o coração urbano onde se encontra a camada mais favorecida”. Os confrontos  a polícia e os  manifestantes fizeram  13 mortos. Seguindo, porém, a estatística dos bairros – que, tal como a economia, tem carácter informal – o número ultrapassa as duas dezenas.

A síntese de Cristiana Pereira diz tudo. “Entre o tecto de chapa e o chapa do transporte, há um enlatado de pobreza e cansaço que não mais se quer conter. Porque quando a fome aperta, a consciência desperta”.


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