Novas vestes em corpo velho

A noite de Maputo vista da janela do hotel

Cá está ela. Entra-me pela janela a Catedral, poema de pedra em branco, iluminada pela tempestade que noite após noite tem descido sobre a cidade. A Catedral foi concluída em 1944, quando Maputo era Lourenço Marques, e a Praça da Independência tinha o nome de Mouzinho de Albuquerque. Belíssima e simultamente expressão do pior do colonialismo português. O presente de Salazar ao Cardeal Cerejeira foi erguido por mãos escravas. Hoje, nenhuma placa evoca essa vergonha. As contradições entre o discurso colonial, pleno de valores humanísticos, e as atrocidades em seu nome cometidas deixaram marcas profundas na sociedade moçambicana. Nesta quase semana em que já estou em Maputo li em paralelo dois livros, um romance, “O Anjo Branco”, e uma análise sociológica , “Identidades, Colonialismo e Libertação”, que atravessa cinco séculos de história. Em diferentes registos ambas as obras desmontam os mitos do colonialismo português. Mitos que serviram para alimentar o imaginário de um Portugal que se julgava escolhido  pelo Destino para tirar outros das trevas do atrazo cultural e civilizacional.

 “Sou analfabeto.

A comida das livrarias

É indigerível para mim eu sei.

E sobre isso infelizmente só há duas opiniões

A tua opinião quando me bates.

A minha opinião quando apanho”

José Craveirinha

 Sentada no bar do Hotel Pestana, frequentado por uma faixa golden card de negros e brancos, com algum tempero de CPPLsistas, diplomatas e cooperantes, ouço as conversas. Não é preciso muito tempo para perceber que a herança colonialista sobreviveu à independência. Lembro-me das palavras de Achille Mbembe*, “nós [os africanos] somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra”.

*que acaba de publicar, “Saindo da grande escuridão – Ensaio sobre a África descolonizada”


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